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Jamil Chade esteve em Porto Alegre nesta semana para lançar o livro “Política, Propina e Futebol” . Ele é o correspondente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Na sua passagem, concedeu a entrevista que segue. O tamanho do escândalo e a sua repercussão chegou a te surpreender? Chade: Infelizmente não. Para quem cobre a Fifa ha 15 anos, o sentimento não foi de surpresa. Mas sim um sentimento de « finalmente deram um basta» . Por anos, esses cartolas foram blindados politicamente, o que permitia um cheque branco para que atuassem como bem quisessem. A imprensa da Europa batia neste assunto? Chade: Parte dela sim, chamando a atenção para o fato de que a organização do futebol estava podre. Mas, por anos, os dirigentes preferiram culpar a imprensa, chamar os jornalistas de « irresponsáveis » e de insistir que as denuncias que apareciam eram levianas. Claro, até que o FBI percebeu que elas tinham fundamentos. Porque demorou para o castelo da Fifa ruir? Chade: O sistema clientelista criado primeiro por João Havelange e aperfeiçoado por Joseph Blatter permitiu que a entidade pudesse operar por anos. As alianças foram construídas não apenas com outros cartolas, mas também com políticos e cúmplices de diversos setores. Algum fato chegou a provocar espanto? Chade: Sim. A insistência da Fifa em negar os fatos. A insistência inicial de Blatter em se manter no cargo. A recusa da entidade em reconhecer que ela faliu moralmente. E, acima de tudo, a insistência da arrogância de um grupo que por anos pensou que estava acima da lei. Os EUA tiveram participação decisiva para que o escândalo se tornasse público? Chade: Sem o FBI talvez a operação jamais tivesse ocorrido. Muito se fala que a ação foi uma retaliação dos EUA por ter perdido a Copa de 2022. Mas Obama e sua cidade de Chicago também perderam em 2009 a Olimpíada de 2016. E nem por isso o COI desabou. Onde buscou todas as informações do livro? Chade: Foram 15 anos de pesquisas e de cobertura semanal do que ocorria na Fifa. Fiz questão de mostrar que todas as denúncias contam com documentos da Justiça, com provas. Não se trata de um livro sobre o que eu acho. Mas de fatos. Como R. Teixeira ficou impune tanto tempo? Chade: Pelo mesmo motivo que a Fifa se manteve blindada: a existência de uma rede de cúmplices na imprensa, na política, na policia, no Judiciário. Sob seu mandato, a CBF chegou a financiar a campanha de deputados, prefeitos e senadores. Quando o clima apertou, a contra-partida da doação foi cobrada. Qual o futuro de Marco Polo? Chade: Ele está sendo investigado. Isso é fato. Num cenário normal, um dirigente precisa deixar seu cargo de comando quando isso ocorre, até para permitir que a investigação e sua defesa possam ocorrer. Mas quando uma pessoa se agarra na cadeira de comando, ele da uma demonstração empírica de que se considera mais importante que a federação que ele comanda. Na Alemanha, o presidente da Federação também passou a ser investigado. Duas semanas depois, ele renunciou. Qual o futuro da Fifa e por consequência da CBF e das federações de futebol? Chade: Elas precisam passar por uma reforma urgente. O mundo não atura mais a falta de transparência. Se essas entidades não mudarem, elas estarão ajudando a minar a credibilidade do futebol de uma maneira profunda. Essas entidades precisam publicar seus salários, colocar limite de mandatos para dirigentes e fazer processos de licitação transparentes, com critérios conhecidos. Como é a rotina de uma prisão na Suíça? Chade: As prisões suíças são consideradas como “exemplares” para garantir a dignidade de uma pessoa. Cada detento fica em uma cela separada, com banheiro. Há TV, podem alugar um computador e tem acesso a uma biblioteca. Em termos de prisão, quem está ali certamente pode se considerar como um privilegiado em comparações a outras prisões pelo mundo. Porque foram necessárias centenas de denúncias para o caso explodir? Chade: Enquanto as denúncias apareciam de forma isolada e a conta gotas, o discurso da Fifa era de que cada irregularidade era, no fundo, algo isolado e obra de alguém que havia se desviado da rota da ética. A Fifa insistia que, como entidade, ela não era corrupta. Apenas alguns poucos dirigentes teriam pervertido o sistema. Agora, porém, o que se prova é que todo o sistema é corrupto e que ele foi construído justamente numa base de clientelismo e troca de favores. Quando isso ficou claro, a entidade desabou. A Copa do Brasil ainda vai dar o que falar? Chade: A Copa de 2014 foi o saque do século. E, pior de tudo, é que ele ocorreu de forma legal, com regras. A Constituição brasileira foi violada com a aprovação de novas leis e um sistema foi estabelecido para permitir que o dinheiro público fosse usado para pagar por uma festa cujos benefícios foram privados. Essa Copa ainda não acabou e tenho certeza que descobriremos muito mais sobre o que de fato ocorreu. O futebol carrega corrupção em todo o mundo? Chade: A corrupção não é exclusividade brasileira. O futebol se transformou, em dezenas de países, em um instrumento de lavagem de dinheiro. O narcotráfico passou a usar o futebol para lavar sua renda, no que eu chamo de o “narco-futebol”. Políticos manipulam jogos e rendas e a bola, tão bem tratada por craques, é alvo de um sequestro por parte de seus dirigentes. Quanto a Fifa lucra por ano e como vivem seus dirigentes. Ou como viviam? Chade: A ironia dessa história é que o golpe do FBI ocorreu num momento em que a Fifa nadava em dinheiro. Com a Copa no Brasil, ela jamais foi tão bilionária em seus 111 anos. No período entre 2011 e 2014, a renda da entidade superou a marca de US$ 5 bilhões. Apenas em salários, ela paga mais de US$ 100 milhões por ano, um valor superior ao que a entidade destinou ao Brasil num fundo ao “legado social da Copa”. Portanto, a vida desses cartolas era de um luxo extremo. Como eu digo no livro, foi criada uma casta de oligarcas da bola. E, também por isso, o tombo é ainda maior. Chade: Chegou a falar com Blatter pessoalmente depois do escândalo? Sim, mais de uma vez. Ele está abalado. É um senhor de 79 anos e, por mais que insista que é inocente, a realidade é que seu império ruiu. Ele jamais pensou que isso aconteceria com ele. Em agosto, por exemplo, ele me insistia que tudo isso não passava de um complô internacional e que ele era inocente.