Por Evandro Krebs*
O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense vive uma crise político-institucional promovida pela sua própria diretoria, leia-se Conselho de Administração e Conselho Deliberativo.
O presidente e seus pares da administração parecem ter iludido o torcedor na medida em que viralizaram a ideia de profissionalização, gestão financeira responsável, política de futebol de continuidade e conquistas. O clube ascendeu dentro e fora de campo no triênio 2015-2017, culminando com o anunciado equilíbrio financeiro acompanhado de faixas no peito. Com justiça foram reconduzidos em duas oportunidades no comando do Clube.
No entanto, a partir de 2018, o que se viu foi a transformação de um projeto de austeridade com responsabilidade em soberba, isolamento e retrocesso. O despencar anunciado culminou com o time Tri Campeão da América de 2017 sendo rebaixado em 2021.
Buscando a razão dos fatos, constata-se que a dita profissionalização, na realidade, foi maquiada pelo amadorismo compadre na direção de áreas vitais; profissionalização de mentirinha?
O custo futebol do time que caiu foi o dobro daquele Tri da Libertadores. O comando do futebol, tão importante nas conquistas, foi desprezado e transformado em dirigentes caricatos e subservientes, culminando com a terceirização do vestiário e gastos em contratações absolutamente desnecessárias e/ou incompatíveis com o mercado da bola e a realidade do Clube. Dinheiro jogado na lata do lixo, para futuras administrações pagarem a conta da irresponsabilidade.
De outro lado, tivemos uma mesa do Conselho Deliberativo eleita com o compromisso da transparência, modernidade, liberdade de expressão e apoio à atuação ativa dos conselheiros. Foram criadas múltiplas comissões de trabalho com o objetivo de integrar o conselho deliberativo à vida administrativa do Clube, objetivando contribuir e fiscalizar. E esta harmonia se deu durante toda o primeiro mandato.
Recentemente, entretanto, os conselheiros foram surpreendidos com uma nova postura, literalmente traduzida em lei da mordaça. Está sendo cada vez mais difícil, hoje, buscar informações sobre a gestão do clube, sob a ameaça da denúncia embasada numa suposta confidencialidade. De uma hora para outra, tudo virou segredo e proibição, chegando ao cúmulo de, na última reunião do Conselho, ser permitida a participação somente ao conselheiro que concordasse com a confidencialidade de tudo que fosse tratado na reunião.
Dentro deste cenário, a Comissão de Futebol do CD foi ignorada ao pedir acesso aos contratos de aquisição e venda de atletas no período de 2021, com o propósito de melhor entender como um Clube que se dizia superavitário há 60 dias e contratava jogadores com contratos em faixa superior a R$30 milhões, de uma hora para outra, anunciava, não ter mais recursos para contratações, além da necessidade de demissões e cortes orçamentários para redução de custos financeiros. Tivemos também a situação da Comissão de Finanças ter solicitado acesso ao contrato do GG (Gerente Geral), ou CEO, como alguns preferem, diante de informações ou desinformações que circulavam sobre possíveis bônus e participações financeiras, e o pedido ter sido simplesmente esquecido na mesa do Conselho.
Por fim, os conselheiros foram surpreendidos com a criação de uma nova Comissão, sem qualquer discussão prévia, para estudar os mecanismos legais que viabilizam a venda dos clubes e/ou de seus departamentos de futebol. Aqui vale um dito popular: gato escaldado tem medo de água fria.
Todos sabemos o que representou a trágica experiência ISL na vida do Grêmio. A propósito, o que se vê hoje no futebol brasileiro é a precipitação de alguns clubes falidos entregando seus patrimônios por ninharias como forma de disfarçar a incompetência de gestão, estimulando um balcão de negócios com interesses outros e menos institucionais. Neste tema do SAF (Sociedade Anônima do Futebol), vale parafrasear Manoel Bandeira:
"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei..."
Para o Conselho Deliberativo, quem sabe possamos restabelecer compromissos originais de campanha e, por exemplo, passar a permitir ao associado do Clube acesso às reuniões via on line pela TV Grêmio? Quando houver, de fato, algum assunto de confidencialidade, que se faça, então, uma discussão restrita.
Quanto ao Conselho de Administração, que a crítica construtiva sirva para reflexão e retomada de rumos e compromissos assumidos, e não para alimentar ódio, ranço e perseguição.
Quem perde com isso tudo? O Grêmio e seu torcedor que gostaria de deixar para trás este momento de desencanto e resgatar seu entusiasmo para voltar a sonhar.
*Evandro Krebs já atuou em várias áreas do Grêmio e é conselheiro do clube
