Hiltor Mombach

A espanholização na visão de um analista

O executivo do Itaú BBA, Cesar Grafietti, aceitou convite para escrever para sobre um assunto polêmico, a espanholização do futebol brasileiro. Grafietti e sua equipe elaboram anualmente um estudo chamado de “Análise Econômico-Financeira dos Clubes de Futebol Brasileiros”. Tem uma visão diferente da desde colunista.
Abaixo, a avaliação de Grafietti.
“Dentre os inúmeros debates sobre o futuro do futebol brasileiro, um dos temas mais recorrentes é o da concentração de renda. Usualmente conhecida por “espanholização” – que remete ao modelo observado na Espanha, onde Real Madrid e Barcelona capturam mais de 50% das receitas, notadamente, obtidas pelos contratos com TVs –, esta concentração, caso se confirmasse, seria o fim da competitividade dos clubes brasileiros.
Mas é importante desmistificar o conceito de “espanholização”, que prega que a desigualdade se reflete na concentração de títulos. Na Espanha, dos últimos 10 campeões da La Liga, nove vezes o título ficou com Real Madrid ou Barcelona. Ponto para a Espanholização? Nem tanto. Na Inglaterra, no mesmo período, foram 4 campeões, sendo que o Leicester foi apenas uma vez.
Na prática, os títulos foram divididos entre 3 clubes (Chelsea, Manchester City e Manchester United). Na Itália, foram três campeões, sendo que em nove vezes os vencedores foram Juventus ou Internazionale. Mesmo na competitiva Alemanha, foram 4 campeões em 10 anos, mas Bayern de Munich (6 vezes) e Borussia Dortmund (2) concentraram títulos.
Ou seja, a concentração de títulos em poucos clubes é uma tendência observada nos últimos 10 anos na Europa, não apenas na Espanha, e está relacionado com a estrutura e a boa gestão esportiva. Exceção à Espanha, os outros países possuem divisão mais igualitária nas receitas de TV, a grande responsável pelo conceito de espanholização.
Voltando para o Brasil, nesse mesmo período, tivemos seis campeões: São Paulo (2), Fluminense (2), Flamengo (1), Corinthians (2), Cruzeiro (2) e Palmeiras(1). Afora o Corinthians, os demais times com dois títulos foram bicampeões ou venceram com intervalo de um ano, denotando muito mais uma consistência esportiva, com equipes bem montadas e trabalhos corretos, do que supremacia financeira. Esse cenário foi observado mesmo depois de 2012, quando os clubes mudaram a forma de negociar com a TV, e isto gerou mais desequilíbrio nessas receitas. Mas por que no Brasil é diferente?
Mesmo se ignorássemos o aspecto histórico de um país com futebol descentralizado num território continental, cujos clubes ganharam força por meio dos Campeonatos Estaduais – nenhum país no mundo tem tantos times considerados “grandes”–, há um aspecto que equilibra o desequilíbrio financeiro e, ao final, iguala todos: gestão.
Boa parte do equilíbrio se dá por conta da gestão dos clubes e da oscilação entre elas. A má gestão dos que recebem mais, destrói valor, enquanto gestões bem feitas agregam. Isto possibilita que um bom trabalho na Base ou a formação de um elenco consistente montado a cus