Hiltor Mombach

A explosão de Renato

Teria que ouvir um terapeuta para decifrar a explosão de Renato após o primeiro gol do Flamengo contra o Grêmio nos recentes 4 a 0

Eis que retorno a Nelson Rodrigues. O fabuloso cronista abre assim um dos seus artigos: "O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizarse. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo".
Teria que ouvir um terapeuta para decifrar a explosão de Renato após o primeiro gol do Flamengo contra o Grêmio nos recentes 4 a 0. Pareceu misturar ira, desabafo, raiva e vibração, sentimentos incontidos e escondidos.
Claudio Oderich estaria entalado nas entranhas? Como se sabe o dirigente teria lançado, não se sabe se com autorização, a semente que culminaria com a saída do treinador da Arena. 
Ou Renato estaria expelindo, quase em convulsão, sua cólera contra aqueles que dizem que ele só dá certo no Grêmio? Ou estaria provando que ama o Flamengo como ama o Grêmio?
Como Narciso, Renato poder ver apenas Renato e não o Grêmio ou o Flamengo e quem ousar desafiá-lo é visto como inimigo. Como o Grêmio se atrevia a impor resistência se do outro lado estava não o time do Rio, mas ele, Renato? 
Para muitos gremistas o gesto foi de uma dolorosa punhalada. Obviamente entenderiam a vibração do ídolo, mas não manifestação tão escarrada de um sentimento incontido que sugeriu rivalidade imensa. Freud explicaria. Ignorantes como eu não entendem.