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O médico Francisco Michielin lançou recentemente o livo “A Copa do Mundo de 1950 – A Maior Tragédia do Futebol Brasileiro”. Um dos capítulos leva o título de: “A face oculta por dólares furados”. A questão dos ingressos, que deu até cadeia nesta Copa do Mundo, já era escândalo naquela época. Com delegado na parada.
Do livro “A Maior Tragédia do Futebol Brasileiro”,
No capítulo: “A Face Oculta por Dólares Furados” – página 99
Talvez, em decorrência da inexcedível empolgação, possamos encontrar explicações para algumas distorções administrativas da CBD, de namoro com atos suspeitos de corrupção. O despreparo pode ter sido a causa do destempero. Inevitavelmente, estourou o escândalo que vinha pintando e já fora objeto de averiguações e sindicâncias: sob a acusação de apropriação excessiva e indébita de ingressos, o presidente provisório da entidade, Mario Pollo, sabidamente um homem de caráter ilibado, novamente viu-se contra a parede dos falatórios das más línguas. Afirmou ele, peremptoriamente, que provaria sua inocência e moveria um processo contra seus detratores. Não era uma boa hora.
Reinava uma confusão dos diabos. Exigia-se a apuração dos culpados. A venda de ingressos foi imediatamente sustada. Populares insatisfeitos que haviam dormido nas calçadas que rodeiam o Teatro Municipal, esperando a abertura dos postos de bilheterias nele instalados, no centro da cidade, envolveram-se em grossa pancadaria. A cada pouco explodia uma. As determinações policiais mudavam amiúde, criando um caos insustentável e irreparável. Primeiramente, houve a autorização para a compra de dez entradas, como limite por cabeça. Depois, o número permitido foi baixando, gradativamente, para cinco, dois, apenas um e, por fim, nada. Cessara qualquer ordem de venda. A revolta se generalizava.
Alguns funcionários, partindo para a ignorância, bradavam grosseiramente: “Se não estão conseguindo ingressos é porque não se precaveram em tempo, vieram no grito, no empurrão, na base do jeitinho de sempre. Não é assim que se age. Chegar em cima da hora fazendo exigências descabidas é problema dos retardatários e não nosso. Eles terão que se virar!”
Incontrolavelmente disseminou-se a ira do povo, originando quebra-quebras, estilhaços de vidros e uma porção de feridos. Irritadiço, o Prefeito Mendes de Moraes decretou a liberação dos ingressos. Ninguém se entendia.
O impetuoso delegado, Ferreira da Costa, empenhado em uma operação de varredura das imediações da área conflagrada dava mais uma vez razão aos clamores do gentio: “Vou ordenar abrir vários locais de venda no Maracanã e se a CBD não deixar organizar, eu vou deixar entrar de graça”.
Vendo as chances lhes escaparem como passarinhos arredios, os cambistas chiavam a mais não poder, apoiados por contraventores interessados na exploração dos milhares de visitantes desorientados.
Numa entrevista radiofônica, Mário Pollo desafogou suas mágoas: “O que estão fazendo comigo é uma injustiça inominável. Estou na CBD desde a sua fundação, com o nome íntegro e limpo. Sinto-me imensamente desapontado, estou farto, não agüento mais. Todos querem mandar e ninguém obedece. Julgo-me fora de tudo. Estou largando meu cargo, renunciando oficialmente”.
E ele sumiu pelo resto do dia, sem se saber seu paradeiro.
Por algumas horas, a CBD, em plena Copa do Mundo, ficou acéfala. Seu presidente, por sinal em exercício, deu no pé com a cabeça quente. Retirou-se pouco antes do meio-dia, avisando que não voltaria mais. Foi muito difícil encontrá-lo. Seus amigos, tendo Mário Filho à frente, fizeram-lhe ver a nódoa que haveria de manchar a sua nobre existência para sempre. Alegaram que mais uns poucos dias e ele estaria livre do peso. As conversações se prolongaram até quase o anoitecer, quando, finalmente, ele foi demovido, voltando a chefiar os interesses do futebol brasileiro. Com a honra inteiramente preservada.
Da investigação policial ficou se sabendo quais eram as mãos que possuíam o maior número de ingressos à disposição, dependendo da hierarquia e de suas influências. No caso de Mário Pollo, embora o volume exagerado – nada menos do que 4.500 – havia a compreensível justificativa de que, afinal, o presidente da CBF precisava estar aquinhoado para fazer suas concessões, convites e oferendas.
Certamente, era de supor que havia muitos “pidões”, os célebres “caronas & penetras”, aqueles que gostavam de bicar e furar, usando de prerrogativas discutíveis, respaldados por seus cargos, os tantos parasitas que grassavam pelo então Distrito Federal. Carteiraço é que não faltava. Autoridades de todos os tipos e de todos os escalões se credenciavam a ganhar o seu. E não podia esquecer-se das embaixadas estrangeiras, multiplicando seus convidados. Quatro mil e quinhentos bilhetes para o presidente da CBD poderiam parecer uma cifra exorbitante. Mas não: ele tinha a necessidade deles para distribuir aos montes de pedichões das camadas mais altas.
O jornal “O Globo”, presumivelmente em troca de serviço, dispunha de 800 ingressos. Um dos vices da CBD, Hugo Racarolli, ufanava-se por dispor de exatos 290. Um diretor, cujo nome permaneceu no anonimato, embolsara uma centena. E, desse modo, um pouco mais, um pouco menos, poder-se-ia imaginar quantos, ainda, tinham desfrutado de tais regalias. Por exemplo, “um jornalista influente”, com sua identificação igualmente não revelada, contava com mil ingressos para fazer deles o que quisesse.
Foi o que, talvez, instigou, inadvertidamente, o escritor e jornalista José Lins do Rego, membro da Academia Brasileira de Escritores, flamenguista roxo, a vender alguns ingressos recebidos como cortesia e, quando pilhado, na abordagem investigativa, não soube ou não pôde esclarecer como eles lhes chegaram as suas mãos, dispensando-se de ter descido a tamanha baixaria. Nos “costumes”, Zé Lins esclareceu que passava adiante dez cadeiras numeradas pertencentes a sua irmã. Por ironia ou por azar, o proposto comprador era um oficial da Marinha que o denunciou. Ficou a dúvida de quantas – sim ou não – poderia ter ele vendido. Mas, a balbúrdia não ficaria apenas nisso e não se restringiria tão somente a esse segmento específico. Esses fatos podem explicar porque o público da Final teria passado de duzentas mil pessoas. Cada um entrou a sua maneira.