Hiltor Mombach

A falta de empatia e a omissão da CBF

Domingo, zapeando pela TV, vi dois Brasis. Num, o futebol rolava solto com festa nas arquibancadas. No outro, no Brasil dos gaúchos, a TV atualizava o número de mortos e desaparecidos.

Sou assumidamente barrista. Como são bairristas paulistas, cariocas, mineiros... E sofro da síndrome do coitadismo.
Acho que os times grandes dos demais estados com times grandes são favorecidos ou mais lembrados. Os estados com times grandes são RS, Minas, Rio e São Paulo.
Não acho, tenho certeza, que Corinthians e Flamengo são sempre favorecidos. E paparicados por Globo e CBF. Moro num estado que parece despencar do mapa do Brasil. Onde agora muitas cidades deixaram de existir por causa de uma enchente histórica. O RS vive em estado de calamidade. Domingo, zapeando pela TV, vi dois Brasis.
Num, o futebol rolava solto com festa nas arquibancadas. No outro, no Brasil dos gaúchos, a TV atualizava o número de mortos e desaparecidos.
Esta introdução é para falar sobre a nota da CBF convocando uma reunião do Conselho Técnico para o dia 27 de maio. A convocação se dá após pedido de Grêmio, Internacional e Juventude no desejo de uma pausa completa no Brasileirão.
O dia 27 de maio marca o fim da duração da medida mais recente da CBF, de adiar todos os jogos dos clubes gaúchos por competições nacionais.
A CBF joga a responsabilidade de parar o Brasileiro nas costas dos clubes. O ministro dos Esportes, André Fufuca, enviou recentemente um ofício ao presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, solicitando a paralisação de todos os jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol por conta das enchentes no Rio Grande do Sul.
Bastava a CBF pegar carona no ofício do ministro e parar o Brasileiro. Minha intuição diz que, aconselhada por alguns clubes, decidiu manter a competição.
Para parar o Brasileiro deve haver unanimidade entre os clubes do Conselho Técnico. Seria o cúmulo do descaramento algum clube que teve jogador convocado para a Copa América sugerir que o Brasileiro seja suspenso quando da realização da Copa América. A estreia do Brasil será contra a Costa Rica, no dia 24 de junho.
Cuca disse que Athletico é favorável à paralisação do Brasileiro. Tite, que é gaúcho, pediu doações. Não pediu para parar o Brasileiro. Receio, talvez, de levar um pito da direção do Flamengo.
De uma CBF que teve como presidentes Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero, José Maria Marin, Caboclo não espero nada.
Aliás, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu vai algum tempo uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) que destituiu Ednaldo Rodrigues da presidência. Graças a isto ele está no poder.
A CBF teve, em 2023, uma receita bruta de R$ 1,172 bilhão, valor superior ao R$ 1,07 bilhão de 2022. O superavit no ano passado foi de R$ 238 milhões, 66% superior ao registrado em 2022, quando obteve R$ 143 milhões.
Nadando em dinheiro, atendeu uma solicitação do senador Kajuru e pediu aos clubes que doem 5% da renda dos seus jogos no Brasileiro para as vítimas da enchente. Ela, a nababa CBF, não tirou um tostão.
O presidente Lula e sua comitiva estiveram no RS para ver de perto a situação de calamidade. Um gesto simbólico necessário. Mostra empatia, solidariedade a um estado da federação.
Ednaldo Rodrigues não veio ver como estão Arena e Beira-Rio. A CBF se acovardou na hora de parar o Brasileiro, jogando a responsabilidade nas costas dos clubes, e é de uma omissão revoltante ao não ver de perto a situação dos clubes gaúchos, principalmente Inter e Grêmio. Que falta de empatia. Que chance desperdiçada de mostrar solidariedade, oferecer ajuda.
Sugeriram que Grêmio e Inter treinassem em outros estados para assim jogar o Brasileiro. Amigos, isto seria uma traição, uma indignidade. Quer dizer, o Rio Grande do Sul conta seus mortos, seus desaparecidos, seus desabrigados, enquanto Inter e Grêmio desfilam pelos gramados como se estivessem em outra realidade, numa bolha!