Hiltor Mombach

A filosofia como arma

Do livro "Uma breve história da Filosofia", de Nigel Warburton

A coruja de Minerva
GEORG W. F. HEGEL
“A coruja de Minerva só voa ao anoitecer”.
Esta era a visão de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831).
Mas o que isso significa?
Na verdade, a pergunta “O que isso significa?” é uma pergunta que os leitores das obras de Hegel se fazem com frequência. Sua escrita é terrivelmente difícil, em parte porque, assim como Kant, Hegel expressava-se em uma linguagem muito abstrata e costumava inventar alguns termos. Talvez ninguém, nem mesmo o próprio Hegel, tenha entendido toda a sua obra. A declaração sobre a coruja é uma das partes mais fáceis de decifrar.
É a forma de Hegel nos dizer que a sabedoria e a compreensão no curso da história humana só acontecerão em um estágio mais avançado, quando olharmos para o que já aconteceu, como alguém que revê os acontecimentos do dia quando a noite cai. Minerva era a deusa romana da sabedoria e costumava estar associada a uma coruja sábia. O fato de Hegel ter sido sábio ou tolo é motivo de debate, mas com certeza ele era influente. Sua visão de que a história se desdobraria de uma maneira particular inspirou Karl Marx (ver Capítulo 27) e certamente mudou o que acontecia, posto que as ideias de Marx incitaram revoluções na Europa no início do século XX. Contudo, Hegel também irritou muitos filósofos. Alguns trataram sua obra como um exemplo do risco de se usar termos de forma imprecisa. Bertrand Russell (ver Capítulo 31) chegou a menosprezá-la, enquanto A. J. Ayer (ver Capítulo 32) declarou que a maior parte das afirmações de Hegel não expressava absolutamente nada. Para Ayer, a escrita de Hegel era mais sem sentido do que informativa e bem menos atraente. Outros, inclusive Peter Singer (ver Capítulo 40), consideravam o pensamento de Hegel extremamente profundo e argumentavam que sua escrita é difícil porque as ideias com que Hegel lutava eram originais demais e difíceis de apreender. Hegel nasceu em Stuttgart, no que hoje é a Alemanha, em 1770 e cresceu na era da Revolução Francesa, quando a monarquia fora superada, e uma nova república, estabelecida. Ele a chamava de “glorioso amanhecer” e, com seus colegas estudantes, plantou uma árvore para comemorar os acontecimentos. O momento de instabilidade política e transformação radical o influenciaram para o resto da vida. Havia uma sensação real de que as suposições fundamentais podiam ser derrubadas, de que o que parecia ser imutável para todo o sempre na verdade não precisava ser. Isso levou ao entendimento de que as ideias que temos estão diretamente relacionadas à época em que vivemos e não podem ser totalmente compreendidas fora de seu contexto histórico. Hegel acreditava que, na época em que viveu, um estágio importantíssimo na história havia sido atingido. Em nível pessoal, ele progrediu da obscuridade para os holofotes. Começou a trabalhar como tutor particular de uma família rica antes de se mudar e assumir o cargo de diretor de uma escola. Com o tempo, acabou se tornando professor na Universidade de Berlim. Alguns de seus livros consistiam originalmente de anotações de aulas feitas para ajudar os estudantes a entender sua filosofia. Quando morreu, Hegel era o filósofo mais conhecido e admirado de sua época. Isso é fascinante, dado o quanto sua obra pode ser difícil. Contudo, um grupo de estudantes entusiasmados dedicou-se a entender e discutir o que Hegel ensinou e apresentar as implicações políticas e metafísicas de sua obra. Profundamente influenciado pela metafísica de Immanuel Kant (ver Capítulo 19), Hegel chegou a rejeitar a visão de Kant de que a realidade numênica subjaz ao mundo dos fenômenos. Em vez de aceitar que a noumena esteja além da percepção que causa nossa experiência, Hegel concluiu que a mente que molda a realidade simplesmente é realidade. Não há nada além dela. Mas isso não quer dizer que a realidade permanecia em um estado fixo. Para Hegel, tudo está em processo de mudança, e essa mudança toma a forma de um aumento gradual na autoconsciência, nosso estado de autoconsciência estabelecido pelo período em que vivemos. Pense no todo da história como um longo pedaço de papel dobrado sobre si. Só podemos entender o que há no papel ao desdobrá-lo. Do mesmo modo, só podemos saber o que está escrito no final do papel depois de abri-lo. Há uma estrutura subjacente à forma como ele se desdobra. Para Hegel, a realidade está constantemente movendo-se na direção do seu objetivo de entender a si mesma. A história não é absolutamente aleatória. Ela está indo para algum lugar. Quando a olhamos em retrocesso, vemos que ela tinha de se desdobrar dessa maneira. Essa ideia é estranha quando a ouvimos pela primeira vez, e suspeito que a maioria das pessoas não concordará com Hegel depois de ler isso. Para a maioria de nós, a história está mais próxima de como Henry Ford a descreveu: “Apenas uma desgraça após a outra”. A história é uma série de eventos que acontecem sem nenhum planejamento geral. Podemos estudar a história e descobrir as causas prováveis desses eventos e predizer um pouco do que poderia acontecer no futuro, mas isso não significa que ela tenha um padrão inevitável tal como Hegel pensava. Isso não quer dizer que ela esteja indo para algum lugar. E, com certeza, não significa que esteja gradualmente se tornando consciente de si. O estudo da história feito por Hegel não era uma atividade separada de sua filosofia, mas sim a principal parte de sua filosofia. Para ele, história e filosofia estavam entrelaçadas. E tudo estava direcionando-se para algo melhor. Essa ideia não era original. A religião geralmente explica a história como se levasse a um ponto final, como a segunda vinda de Cristo. Hegel era cristão, porém sua explicação estava longe de ser ortodoxa. Para ele, o resultado final não era a segunda vinda. Hegel acreditava que a história tinha um alvo final que ninguém havia de fato considerado antes: a vinda gradual e inevitável do Espírito pela marcha da razão. Mas o que é o Espírito? E o que significa o Espírito tornar-se consciente-de-si? A palavra em alemão para Espírito é Geist. Os acadêmicos discordam sobre seu significado preciso; algumas pessoas preferem traduzi-la por “Mente”. Parece que Hegel quer representar com o termo nada mais que a mente única de toda a humanidade. Hegel era idealista – pensava que o Espírito ou a Mente era fundamental e descobre sua expressão no mundo físico (em contraposição, os materialistas acreditam que a matéria física é o fundamento). Hegel recontou a história do mundo em termos de aumentos graduais da liberdade individual. Graças ao que para uns é liberdade, mas para outros não o é, estamos nos movendo da liberdade individual para um mundo no qual todos são livres, um Estado político que permite a colaboração de todos para a sociedade. Hegel acreditava que uma das maneiras de progredirmos no pensamento é pelo embate de uma ideia e seu oposto, e que podemos chegar mais perto da verdade seguindo seu método dialético. Primeiro, alguém apresenta uma ideia – uma tese. Essa tese é confrontada com sua contradição, com uma visão que a desafie – sua antítese. Desse confronto entre duas posições surge uma terceira posição mais complexa, que leva em consideração as duas anteriores – uma síntese. E depois, na maioria dos casos, essa síntese começa todo o processo novamente. A nova síntese torna-se uma tese, que é confrontada com uma antítese. Tudo isso continua acontecendo até que ocorra o pleno entendimento-de-si por parte do Espírito. O principal propósito da história é o entendimento por parte do Espírito de sua própria liberdade. Hegel narrou esse progresso desde aqueles que viviam sob o domínio de governos tiranos na antiga China e Índia, que não sabiam que eram livres, até a época dele. Para esses “orientais”, somente o governante todo-poderoso experimentava a liberdade. Na visão de Hegel, as pessoas comuns não tinham absolutamente nenhuma consciência de liberdade. Os persas antigos eram um pouco mais sofisticados no reconhecimento da liberdade. Eles foram derrotados pelos gregos, e isso trouxe progresso. Os gregos, e depois os romanos, tinham mais consciência da liberdade do que aqueles que os antecederam. No entanto, ainda mantinham escravos. Isso mostrava que eles ainda não compreendiam totalmente que a humanidade como um todo devia ser livre, e não só os ricos ou os poderosos. Em uma famosa passagem de seu livro A fenomenologia do espírito (1807), Hegel discutiu a luta entre um mestre e um escravo. O mestre quer ser reconhecido como um indivíduo consciente-de-si e precisa do escravo para atingir esse objetivo, mas não admite que o escravo também mereça reconhecimento. Essa relação desigual leva a uma luta, com a morte de um dos dois, mas a luta é autodestrutiva. Por fim, mestre e escravo acabam reconhecendo que necessitam um do outro e que precisam respeitar a liberdade um do outro. No entanto, segundo Hegel, foi só com o cristianismo, que desencadeou uma consciência do valor espiritual, que a liberdade genuína tornou-se possível. Em sua própria época, a história realizou seu objetivo. O Espírito tornou-se consciente de sua própria liberdade, e a sociedade era um resultado ordenado pelos princípios da razão. Isso era muito importante para ele: a verdadeira liberdade só surgiu de uma sociedade propriamente organizada. O que preocupa muitos leitores de Hegel é que, no tipo de sociedade ideal imaginada por ele, aqueles que não se encaixam na visão de sociedade dos poderosos organizadores serão forçados, em nome da liberdade, a aceitar esse modo “racional” de vida. Serão eles, na frase paradoxal de Rousseau, “forçados a ser livres” (ver Capítulo 18). O resultado final de toda a história acabou sendo que o próprio Hegel chegou à consciência da estrutura da realidade. Ele parecia pensar que havia chegado a esse estágio nas páginas finais de um de seus livros. Esse foi o ponto em que o Espírito compreendeu a si mesmo pela primeira vez. Então, assim como Platão (ver Capítulo 1), Hegel conferiu uma posição especial aos filósofos. Lembre-se de que Platão acreditava que os reis-filósofos deveriam governar sua república ideal. Hegel, ao contrário, acreditava que os filósofos poderiam atingir um tipo particular de autoentendimento que também era o entendimento da realidade e de toda a história, uma outra forma de representar as palavras gravadas no Templo de Apolo em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. São os filósofos, acreditava ele, que acabam percebendo o derradeiro padrão de desdobramento dos eventos humanos. Eles admiram o modo como a dialética produziu um despertar gradual. De repente, tudo se torna claro para eles, e o objetivo do todo da história humana torna-se óbvio. O Espírito entra em uma nova fase do entendimento de si.