Hiltor Mombach

A incredulidade de seu Zeca

Seu Zeca é o último de uma geração. De uma geração que acredita em futebol por amor à camiseta. Seu Zeca viu em campo Carlitos, Nena, Villalba, Tesourinha, Adãozinho, Herculano, Geada, Sérgio, Clarel, Joni...Seu Zeca também lembra do grande Santos de Pelé, do Palmeiras, a Academia, do eterno Botafogo de Garrincha...
Ah, seu Zeca também acredita em esporte amador puro. Para seu Zeca, um atleta que receba qualquer tipo de benefício pratica amadorismo marrom. Seu Zeca está preso a um mundo jurássico.
Seu Zeca anda pasmo, incrédulo. Leram para ele uma declaração do presidente do Corinthians, Roberto de Andrade. Seu Zeca não gosta do Corinthians. Nunca gostou. Diz que os times gaúchos sempre foram roubados quando jogaram contra o representante paulista. Não sei de onde seu Zeca tirou esta história. Deve ser paranoia.
Seu Zeca ouviu de boca aberta a leitura. Era o relato de Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, que perdeu meio time para os chineses.
“Não vamos ficar bravo com o atleta. Quem chora pelo Corinthians sou eu. O torcedor também. O resto não tem amor ao Corinthians. Eles trabalham no Corinthians. Temos a mania de achar que o atleta tem um vínculo eterno. É duro falar isso, mas é a verdade. O poder financeiro fala mais alto na vida de qualquer cidadão. Quando o dinheiro é muito maior não tem o que fazer”.
Seu Zeca não resistiu: “Dinheiro? Dinheiro? Mas e o amor à camiseta! Imagina se Tesourinha e Clarel iriam deixar o poder financeiro falar mais alto. Não se fazem mais jogadores como antigamente. Os de antigamente até jogavam em dois, três clubes. Mas amavam todos. Jogavam por amor”.
A leitura de declaração de Roberto de Andrade prosseguiu e seu Zeca ficou ainda mais perplexo ao ouvir os valores do negócio.
“Eles (os chineses) não sabem nem meu nome. É para vocês verem a situação que o futebol nos coloca diante do poder da China. Existe sondagem a outros atletas. Podemos nas próximas horas perder outro jogador. Esse é o preço que se paga de um time campeão, que tem os melhores atletas do Brasil. Não tem muita defesa para o clube. Não vamos fazer loucura. É bem insano equiparar salário de R$ 2 milhões”.
Seu Zeca ganha o salário mínimo e nunca acreditou nas mentiras que diziam sobre D’Alessandro receber mais de R$ 600 mil por mês ou de que o Grêmio teve que pagar mais de R$ 13 milhões para rescindir com Kleber, o Gladiador. Achava que as pessoas diziam isto para irritá-lo.
Seu Zeca é do tempo do respeito nos negócios, da diplomacia. Ninguém atropelava ninguém. Um presidente de clube jamais tirava um jogador sem consultar o presidente do outro clube.
Assim, quase caiu da cadeira com o último trecho da declaração do presidente do Corinthians sobre como se deu o ataque dos chineses.
“Eles não conversam com o clube. Não existe defesa. Nessa situação, podemos perder cinco, seis, sete, todos os jogadores que sejam requisitados. Não é uma postura do Corinthians estar tirando os atletas. Nosso planejamento contava com todos. Vocês podem me chamar de louco. O Renato se despediu de todos, e o Corinthians não tem um documento do clube dizendo que vai pagar. Vocês acreditam?”
Seu Zeca ouviu tudo perplexo e retirou-se para o quartinho da sua modesta morada. Sua última frase foi “é o fim do mundo”. Não ouviu a última parte do desabafo do presidente corintiano.
”Primeiro que todos nós fomos surpreendidos com essas saídas. Vou tentar ser didático na explicação: o futebol chinês trabalha um pouco diferente de qualquer clube. Qualquer outro procura o clube e pergunta se tem interesse em vender. Os chineses procuram o atleta, se acertam com ele, seduzem o atleta com valores e o clube toma ciência meia hora antes de ele falar que vai embora”,