Hiltor Mombach

A malvada do campinho

Nada mais verdadeiro do que esta frase de Nelson Rodrigues:
“O patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente.”
Abro o site do Tribunal de Justiça e o passado está na manchete:
“Assegurado direito de pai e filho jogarem futebol no pátio de casa”.
Resumo da ópera: um casal de aposentados recorreu à Justiça para reivindicar o fim do barulho causado por pai e filho durante atividade esportiva.
A intenção foi negada pela Justiça, que entendeu que a situação está dentro do limite de tolerância entre vizinhos.”Fui remetido à minha infância.
Meu pai tinha um hotel em Garibaldi, o hotel Garibaldi.
A novidade na época era água encanada nos quartos.
Nos fundos do hotel havia um terreno imenso abrigando uma horta, árvores frutíferas e um galinheiro.
O terreno do pai terminava em uma cerca que dava para um campinho de futebol.
Não encontro paralelo entre um campinho de futebol com nada nos tempos atuais e explico: o campinho, qualquer um, despertava uma euforia indescritível.
Porque um campinho nunca vinha sozinho.
Estava sempre acompanhado de dezenas de piás unidos por uma bola.
E a algazarra!
Não havia esta tal de Internet para separar a garotada.
A bola era sinônimo de união.
Era pular a cerca do hotel e eu estava entre a companheirada.
O campinho fazia fundo com o terreno de dona Adelaide.
Ninguém dizia apenas Adelaide, era dona Adelaide.
A simples citação dona Adelaide desencadeava calafrios.
Para nós, ela era a malvada.
Havia a lenda de que quem entrasse naquele terreno levava tiro.
Literalmente.
O que se dizia era que dona Adelaide tinha uma espingarda, destas de dar tiro de sal grosso.
Não apenas tinha uma espingarda como já havia feito uso disparando no traseiro de alguns intrusos.
Toda vez quem que a bola caia no terreno de dona Adelaide batia o pavor.
Um rodízio determinava o herói que iria resgatar a pelota.
Enquanto uns espiavam pelas frestas da cerca feitos quero-queros para alertar do perigo, um pulava.
Era sábado e a festa de um casamento seria no nosso hotel.
Já anoitecendo, eu voltava do campinho e dei uma passada na cozinha.
Queria beliscar alguma coisa.
A cozinha estava um inferno, intransitável com os preparativos para o casório.
Meu olhar pousou sobre uma mulher encorpada.
Era dona Adelaide! Gelei.
Viera fazer queixa.
Ela nem se dignou a olhar para mim.
Soube pela minha mãe que ela estava ali para ajudar no casamento.
Então dona Adelaide era amiga da mãe!
Nem de longe era se parecia com a malvada da lenda.
Dona Adelaide era de carne e osso.
Tomei coragem, e era preciso, e fui conversar com ela.
Foi mais um monólogo.
Perguntei se, vejam a sutileza do piá aqui, se por um acaso um dia uma bola caísse no terreno dela se, nesta hipótese, eu poderia pular a cerca para buscar.
Ela simplesmente sorriu.
O sorriso desencadeou em mim um vermelhão.
Estava claro que eu havia me denunciado.
O sorriso veio seguido de um sim. Alívio!
De pintinho, ela me transformou num galo.
Obviamente não contei do encontro para os amigos, apenas tirei proveito.
Toda vez que a bola caia no terreno de dona Adelaide, eu agilmente pulava a cerca.
Tornei-me, digamos assim, imprescindível, o bambambã a desafiar a malvada da espingarda que dava tiro de sal grosso.
Êta mundão!