O caso dos nadadores americanos cujo relato de assalto durante os Jogos do Rio foi desmascarado aponta, novamente, para os conceitos e pré-conceitos que cada um carrega.
Poderia apostar que Ryan Lochte desembarcou no Brasil achando que o país era uma terra de ninguém onde ele, nascido nos EUA, podia tudo, inclusive mentir deslavadamente, e sair impune. Imaginou que ninguém iria investigar, pois, afinal, era o Brasil e, mais do que isto, o Rio de Janeiro.
Não se pode cometer o erro de colocar no mesmo saco Ryan Lochte e a delegação americana, esta envergonhada com o episódio.
Sabemos que o fato envolveu o nadador e não os Estados Unidos.
Generalizar seria cometer um pecado gravíssimo.
Um jornal americano rotulou Ryan Lochte de “mau americano”.
Há más pessoas em todos os países do mundo.
Eu estava na África do Sul em 2010 para a cobertura da Copa.
Fiquei lá 40 dias. Tempo mais do que sificiente para retornar com uma outra visão do país, do qual passei a ser admirador e para onde pretendo viajar a passeio com minha família. Relatei um episódio, que transcrevo.
Não julgo Lochte.
O caso que prossiga na polícia e na Justiça. Acho que todos nós carregamos algum preconceito do qual precisamos nos livrar..
“Sol e temperatura de 9 graus nos esperavam em Johanesburgo.
Eram 7h. Desembarcamos com malas, conceitos e preconceitos.
John Lukacs tem uma visão diferente sobre preconceito, no sentido literal, pré+conceito.
A questão básica é que vamos formando conceitos e nos apegamos a eles.
Que conceito, ou pré+conceito, eu carregava dos africanos?
O das notícias, não as de agora, quase sempre ruins.
Li, dias atrás, sobre um assalto na África do Sul.
Como se os assaltos fossem uma mazela dos africanos.
Em Porto Alegre, assalta-se na Rua da Praia ao meio-dia. Rouba-se no Rio, em São Paulo, em Tóquio, na Alemanha...
Falo sobre isto para relatar um episódio. Fui a um supermercado que fica perto de onde estamos.
Fui caminhando.
Na volta, já noite, vinha carregado de sacolas, um tanto ofegante, quando um africano pediu, em inglês, se eu queria ajuda.
Fiz que não entendi e apressei o passo.
Pensei na notícia do assalto. Educadamente, o rapaz insistiu.
Retruquei que não precisava, que estava tudo OK.
Ele sorriu e voltou a insistir.
Parei na calçada, larguei duas das cinco sacolas, que ele pegou como quem vence uma batalha, a de me convencer que estava tudo bem.
Ajudou-me na tarefa até a entrada do elevador, disse um seja bem-vindo e saiu. Assim foi o meu primeiro dia em Johanesburgo, de carinho, atenção, solidariedade, de um povo caloroso.
É preciso conhecer para julgar. Alguém dirá que estou sendo precipitado.
Não mais do que fui ao ler a notícia do assalto.
Os meus quase 60 anos me ensinaram que o pior tipo de ignorância é o conceito arraigado, aquele que fincou raízes.
O rapazote que me ajudou jamais saberá que veio dele mais uma lição de vida.
O mundo é um só.
Somos todos irmãos.”
