Hiltor Mombach

A modernidade do futebol

Vivemos uma época surpreendente: as teses, hoje, devem vir acompanhadas obrigatoriamente de fatos.
Uma tese sem a sustentação de fatos é uma tese furada, digna de escárnio.
Dias atrás um amigo meu fez uma tese sobre o fim do tico-tico.
"Repara e vê se ainda encontra tico-tico" sentenciou.
Foi desmentido com um clique no Google.
Havia tico-tico por todas as partes.
As mentirinhas veniais sofreram um duro golpe.
Vai tempo, quando nem se sonhava com esta espantosa modernidade, um radialista puxou do bolso uma caderneta, sacudiu a dita cuja no ar feito um troféu e lascou:
"Tenho o telefone do Pelé".
Da plateia estupefata só saiu um oh! invejoso.
Hoje, exigiriam que ele enviasse mensagem via WhatsApp como prova.
A modernidade exige a confirmação de tudo.
A modernidade está acabando com o fuxico de bar.
Vejam: há sempre alguém apalpando uma engenhoca eletrônica para desmentir qualquer que seja a tese.
A modernidade matou o fuxico.
Alguém me diz que Gisele Bündchen se separou de Tom Brady.
Antes que eu comemore o infortúnio do marido traidor alguém dispara:
"É mentira, está no Google que é mentira".
Acabaram com uma instituição nacional, a fofoca.
Obviamente o amigo leitor já deve ter desconfiado de que vou promover uma tese sem sustentação nos fatos.
É isto mesmo.
E qual a tese?
O fair play, o jogo limpo, está transformando o futebol.
O Brasil levou 7 a 1 da Alemanha sem dar um pontapé.
Rendeu-se com uma constrangedora e patética dignidade.
Os jogadores mais pareciam uma meiga companhia de dança bailando felizes a cada gol enquanto uma nação chorava de vergonha.
O Inter levou 5 a 0 do Grêmio sem ameaçar um botinaço seguer.
Não pode haver nenhum tipo de dignidade em vexame tão indigno.
Não, não estou fazendo a apologia da violência, longe disto.
O que estou dizendo é que no tempo de Figueroa o cotovelo comia solto dentro da área.
E nos tempos de Dinho a bola passava, mas o rival ficava.
Do pescoço para baixo era canela.
Era um time levar dois gols para abrir a caixa de ferramentas.
Dois gols era o sinal verde para apatifar a partida.
Não estou dizendo que se deva apatifar uma partida, apenas estou lembrando como eram as coisas e não vai tanto tempo assim.
Tudo com a conivência da arbitragem.
Hoje, quando um atacante entra na área os zagueiros fogem em disparada.
Sabem que qualquer toque acaba em pênalti, principalmente quando quem ataca é o Corinthians.
Os volantes brucutus estão cedendo lugar a jogadores elegantes, de um refinamento que sugere estarem praticando balé. As goleadas pipocam mais do que os escândalos governamentais.
A isto dão o nome de futebol moderno.