Por Francisco Michielin
A absurda e lamentável morte do jogador uruguaio Izquierdo levanta algumas questões e impulsiona para um "J'accuse", à semelhança de Émile Zola na apologia da inocência do Capitão Dreyfuss.
Sim, talvez seja mesmo, em primeiro lugar, um "Eu acuso".
E ele se dirige diretamente e veemente contra o calendário criminoso, verdadeiramente assassino, em que os despreparados dirigentes tornaram o futebol.
E quando falo em dirigentes incluo todos no mesmo bloco: sejam os de entidades federativas ou dos clubes.
Como podem eles admitir tais aberrações?
Quem aguenta 70 partidas (ou mais) por anos? Ninguém!
Em média, são cerca de 6 a 7 jogos por mês!
Os jogadores deixaram de serem tratados como seres humanos. São tidos como super-atletas.
Eles não ficam em suas casas, com suas famílias, nem sequer uma semana completa a cada mês.
Se jogarem no domingo, concentram no sábado. Folga na manhã da segunda e já treino à tarde. Terça viagem. Quarta, jogo. Quinta, viagem de volta, e assim o ciclo vicioso se completa e se repete.
Teria sido "apenas e tão somente" a arritmia cardíaca a causa da morte de Izquierdo?
Teria ele um substrato anatômico, não identificado, que se escondia por trás de um coração aparentemente normal?
Todos nós, cardiologistas, sabemos que a possibilidade de mortes súbitas em atletas saudáveis, pode ocorrer entre uma a três a cada 100.000 e que os homens estão muito mais sujeitos do que as mulheres.
Sabemos, também, que existem muitas causas para deflagrar distúrbios tão graves do ritmo, evidentemente a começar pelas doenças cardíacas. E, por outro lado, há um bom número de arritmias que não conduzem ao óbito, toda ela, entretanto, merecedora de investigação especializada.
A morte de Izquierdo deve ser debitada somente à fatalidade? Pode ser.
Mas, também, não.”
