A NEBULOSA ASCENSÃO DO PODEROSO JÉRÔME VALCKE / DA CARTA CAPITAL / PARTE 1
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A nebulosa ascensão do poderoso secretário-geral Jérôme Valcke, que causou prejuízo milionário à Fifa e está cotado para suceder Blatter, de quem sabe muito
Por Paolo Manzo e Rodrigo Martins
Há 12 anos, o suíço Joseph Blatter é o presidente da Fifa. Nos últimos tempos, no entanto, quem coloca a mão na massa e executa os principais projetos é o francês Jérôme Valcke, 49 anos, secretário-geral da Federação. Do acompanhamento das obras de estádios aos contratos de patrocínio, tudo passa por seu crivo. No Brasil, tornou-se mais conhecido após publicar um ácido relatório no qual critica a lentidão na execução das obras de infraestrutura para a Copa de 2014. Constantemente opina sobre a situação dos estádios brasileiros e teve papel decisivo na nebulosa exclusão do Morumbi do torneio.
Tem tanto poder dentro da Fifa que se sente à vontade até para apontar o dedo ao presidente francês Nicolas Sarkozy, acusan-do-o de indevida interferência nos rumos do esporte, no episódio em que o chefe de Estado cobrou explicações dos jogadores sobre o fracasso da seleção francesa na Copa. Fontes ouvidas por CartaCapital asseguram que, em 2015, Blatter deverá indicar Valcke para sucedê-lo na presidência da entidade, a despeito das ambições de Ricardo Teixeira, chefe da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). “Não me surpreenderá se Teixeira começar a criticar Blatter nos próximos meses”, confirma o jornalista Juca Kfouri em seu blog.
Trata-se de uma curiosa história de superação. Há quatro anos, a reputação de Valcke estava na lama. De 2003 a 2005, o francês, então diretor de mar-keting e tevê da Fifa, comandou uma desastrosa negociação de patrocínio que rendeu um prejuízo milionário à entidade máxima do futebol. Acabou afastado do cargo após uma juíza de Nova York, em dezembro de 2006, anular um contrato firmado pela Fifa com a Visa, em detrimento da Master-Card, parceira da Federação nos 16 anos anteriores. Valcke foi acusado de mentir para os dois grupos durante as negociações, fato que ele próprio admitiu em juízo. E a Fifa viu-se forçada a assinar um acordo com a MasterCard para encerrar o processo. Teve de desembolsar 90 milhões de dólares, quase metade do valor acertado no malfadado contrato com a Visa.
A corte cancelou o negócio porque a MasterCard tinha direito de preferência na renovação do patrocínio, e isso não foi respeitado. “Além disso, a conduta da Fifa no cumprimento de sua obrigação e na negociação para o próximo ciclo de patrocínio não se caracterizou de modo algum como ‘fair-play’ (jogo limpo, em alusão ao lema oficial da Fifa)”, pontuou a juíza Loretta Preska, na sentença com 125 páginas, datada de 6 de dezembro de 2006.
Ao término do julgamento, a Fifa reconheceu que as negociações “violaram seus princípios” e, ao justificar o afastamento do seu diretor de marketing, afirmou que “não poderia aceitar tal conduta de seus próprios funcionários”. Curiosamente, após um período sabático de dez meses, Valcke seria readmitido. Desta vez, para o cargo de secretário--geral. Virou chefe, subordinado apenas a Blatter. Espantoso? Nem tanto.
Um documento obtido pelo jornalista inglês Andrew Jennings, autor do livro Foul! The Secret World of Fifa: Bribes. Vote-rigging and Ticket Scandals (em livre tradução, Falta! O Mundo Secreto da Fifa: Subornos, Compra de Votos e Escândalos com Ingressos), dá uma pista do que pode ter acontecido. Trata-se de uma correspondência, enviada por Blatter em 30 de abril de 2001, na qual ele reclama de uma “tentativa de chantagem” feita pela Vivendi, grupo para o qual Valcke trabalhava, contra a Fifa.
À época, Valcke era diretor da emissora Canal+, pertencente ao conglomerado de telecomunicações francês. A Vivendi tinha interesse de comprar a falimentar ISL, que negociava os contratos de televisão e marketing da Cop-a do Mundo. Antes de bater o martelo, auditores do grupo investigaram as contas da ISL. E os franceses desistiram do negócio. Na carta, Blatter reclama ao mesmo Valcke das ameaças feitas pelo advogado da Vivendi, Alain Gloor, em duas ocasiões. E afirma: “A posição da Fifa, de modo algum, jamais será alterada por qualquer ameaça ou tentativa de chantagem. (...) A Vivendi é uma alternativa para a Fifa, mas sem dúvida não é a única”.
Procurados pelo jornalista inglês, Valcke e Blatter não quiseram comentar o teor da correspondência que fala em chantagem. “Qualquer estagiário de contabilidade poderia encontrar o rastro do dinheiro sujo da ISL na primeira manhã de trabalho”, provoca Jennings. “Valcke e sua equipe teriam encontrado alguma evidência? Como eles não poderiam?”
No caso do patrocínio das operadoras de cartão, ficou comprovado que Valcke e sua equipe negociaram simultaneamente com Visa e MasterCard, sem respeitar o “direito de preferência” e de “primeira recusa” que a última empresa detinha. A Fifa teria omitido da Visa a restrição contratual que a impedia de negociar com terceiros sem antes fazer uma oferta à Master-Card. Esta, por sua vez, acabou ludibriada com a falsa perspectiva de uma negociação exclusiva por um prazo de 90 dias. Para a juíza americana Loretta Preska, desde o início Valcke teria privilegiado a Visa, chegando, inclusive, a apresentar as ofertas de patrocínio para a concorrente de sua antiga parceira antes da própria.
“Enquanto as testemunhas da Fifa em julgamento denominaram de forma audaz as quebras (contratuais) como ‘mentiras inofensivas’, ‘mentiras comerciais’, ‘blefes’, e, ironicamente, ‘o jogo’, seus e-mails internos discutem as ‘diferentes desculpas para dar à MasterCard sobre o motivo de o contrato não ter sido fechado com eles”, anota a juíza na sentença. Stefan Schuster, da equipe de Valcke, chegou a comparar as mentiras à infidelidade no casamento: “Bom, se você disser à sua esposa que a está traindo, é uma interrupção do casamento. Se ela não souber disso até o fim, se você viveu bem até os 90 anos, talvez esta seja a melhor maneira”. Mas ele próprio, por e-mail, teria alertado o chefe de que o claro favorecimento à Visa poderia comprometer a “credibilidade da Fifa no mercado”.
Na reta final das negociações, subordinados de Valcke sugeriram que, ao menos, fosse dada uma chance para a MasterCard cobrir a oferta da Visa (180 milhões de dólares, mais um contrato adicional de marketing de 15 milhões). Valcke preferiu enganar os negociadores da MasterCard até comunicar a decisão final. Em juízo, Valcke admitiu ter recusado a sugestão por interesse próprio. “Se a MasterCard tivesse dito sim, nós subiríamos a oferta. O Comitê Executivo (da Fifa) poderia pensar que tinha oferecido o contrato de patrocínio por um preço menor que o real e que eu não tinha feito o trabalho corretamente.”
Quando retornou à Fifa, após os dez meses de afastamento, Valcke deu uma entrevista ao jornal britânico The Independent, na qual nega ter obtido vantagens financeiras pessoais da negociata. “Eu cometi o maior erro da minha vida ao dizer que, nos negócios, não dizemos sempre a verdade, e isso foi entendido como uma ‘mentira comercial’”, justificou-se. Certo é que Valcke contava com o apoio de Blatter, que defendeu as iniciativas do seu diretor de marketing nas reuniões do Comitê Executivo da Fifa.
Além disso, em e-mail para Tom Shepard, vice-presidente de parcerias da Fifa, Valcke afirma “que era a intenção de Blatter que a Visa obtivesse o patrocínio” de qualquer forma. Àquela altura das negociações, a MasterCard tinha a melhor oferta: 30 milhões de dólares a mais que a concorrente. Em juízo, Valcke sustentou que essa era mais uma de suas “mentiras inofensivas”.
