Hiltor Mombach

A NEBULOSA ASCENSÃO DO PODEROSO JÉRÔME VALCKE / DA CARTA CAPITAL / PARTE 2

A NEBULOSA ASCENSÃO DO PODEROSO JÉRÔME VALCKE / DA CARTA CAPITAL / PARTE 2

Os rumores de que Blatter deve apoiá-lo nas eleições para a presidência da Fifa, em 2015, podem azedar a relação de amizade que Valcke mantém com Ricardo Teixeira. O brasileiro passou dois réveillons ao lado do secretário-geral da Fifa na sua casa em Angra dos Reis, litoral fluminense. Muito além dos passeios de iate pela costa brasileira, ambos trabalham em perfeita sintonia nos preparativos da Copa de 2014. Todas as vezes que Teixeira, nos bastidores, pressionava o governo a liberar os recursos para a Copa, Valcke aparecia publicamente para criticar a lentidão das obras de infraestrutura para o mundial.

No imbróglio do Estádio do Morumbi, a dupla também agiu com harmonia. Desde o início de 2009, o São Paulo Futebol Clube, proprietário da arena, apresentou cinco projetos de reforma para poder abrigar os jogos da Copa. Também apresentou garantias para executar as obras, orçadas entre 200 e 250 milhões de reais. Todos foram recusados por Teixeira, presidente do Comitê Organizador Local (COL), que tentou impor um projeto de 650 milhões de reais, muito além das possibilidades do clube. Em conversas reservadas, diretores são-paulinos afirmam que, desde o início, houve má vontade por parte dos organizadores, que colocavam novas exigências a cada projeto apresentado.

Um desses diretores, envolvido na negociação com a Fifa, afirma que, ao contatar investidores para a reforma do Morumbi, eles informavam que já haviam sido procurados pelo empresário J. Háwilla, dono da Traffic, que atua em marketing esportivo, para criar um fundo privado e erguer um novo estádio em São Paulo. Tudo com o aval de Teixeira e o beneplácito do prefeito Gilberto Kassab, que admitiu ter se encontrado com o presidente da CBF, há um ano e meio, para discutir sobre as arenas paulistanas.

Na mesa estaria o projeto do estádio Piritubão, orçado em 1 bilhão de reai-s. Somados os investimentos no entorno, incluindo hotéis e centro de convenções, a cifra passa dos 6 bilhões de reais. Kassab nomeou seu secretário de Planejamento Urbano, Miguel Bucalem, para desenhar o modelo de negócio do estádio. Bucalem já teria, inclusive, encontro marcado com dirigentes da Fifa para tratar do assunto na África do Sul.

Háwilla e a Traffic negam envolvimento na articulação por um novo estádio na capital paulista. Menos parcimoniosos, Teixeira e Valcke nunca excluíram essa possibilidade, e se dedicaram a desqualificar publicamente os projetos de reforma do Morumbi. Quando finalmente o estádio foi vetado para a Copa, o francês festejou: “É uma boa notícia. Tentamos trabalhar com o Morumbi há meses, anos. Sempre apareciam novos projetos. Chega uma hora que você tem de parar de brincar”.

O governo brasileiro enxerga, na Copa de 2014, uma oportunidade de atrair investimentos para o País. O custo, no entanto, é elevado: mais de 20 bilhões de reais em gastos estatais. O valor, na verdade, pode ser muito maior se levar em conta que o Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, custou dez vezes mais que o orçamento inicial. A preocupação fica por conta das regras para a aplicação do dinheiro, já determinadas pela Fifa, que cobra a execução das obras de acordo com seus interesses e de seus patrocinadores, não necessariamente os interesses públicos. E, por trás da Federação, há o influente Valcke dando as cartas.