Hiltor Mombach

A polêmica em torno do título do Grêmio de 83 e o do Internacional de 06

A polêmica em torno do título do Grêmio de 83 e o do Internacional de 06

Caro Hiltor,

a tal da polêmica em torno do título do Grêmio de 83 e o do Internacional de 06 é motivo para minha grande tristeza e uma decepção sem tamanho. A birra entre as direções dos dois times é de um amadorismo bisonho. Clubes que se dizem primores de organização e vanguardistas em marketing não devem protagonizar tão redundantes papelões. O que é que o Alberto Guerra ganhou com o episódio dos luminosos para o Grêmio? O que é que o marketing do colorado ganhou para o clube com o episódio da ISO 9001 (respondido, o que é pior, de maneira tão infeliz quanto, tempos depois)? Nada. E que não venham com a resposta "associados", porque, um "associado" desses é o primeiro a deixar de pagar mensalidade quando o momento não é bom.

A FIFA não reconhece o título dos torneios que ela não organizou esses eventos, da mesma forma que o mundo do futebol só passou a considerar o do Corinthians (convidado, como é de praxe desta instituição) campeão de algum título internacional quando a empresa (por que é isso que ela é, nos dias de hoje) organizou um formato e decidiu que faria disso um evento anual, coisa que demorou cinco anos para fazer. E esse "reconhecer" e "não reconhecer" é resultado da briga com a Toyota que se recusou a patrocinar o torneio da instituição - é só lembrar que, em 2005, a FIFA colocou no seu site como "Campeões do Mundo", quando ainda em negociação com a montadora japonesa, todos os que tinham vencido a hoje "Copa intercontinental". Sem falar que a toda poderosa só teve a maravilhosa ideia de inventar um "inédito" torneio mundial depois que a competição já estava consolidada (basta ver que alguns times abriam mão de disputar esses jogos lá pelos anos 60 para se dedicar aos campeonatos nacionais). A tal da globalização, a mudança do status da Copa do Mundo (que passou a ser um imenso evento midiático praticamente ininterrupto ao invés de apenas um torneio entre seleções), o fim da Guerra Fria, todos esses foram eventos históricos que possibilitaram que uma instituição como a FIFA tivesse interesse em colocar o seu nome num evento que já tinha tradição. Como não conseguiram isso de graça, agem da forma que vemos.

E mais: quem é que imaginava um torneio com países africanos, asiáticos e jogadores australianos até os anos 90? A maioria dos países africanos estavam sendo descolonizados pelos imigrantes europeus durante os anos 60 e 70 - ou seja, como jogar futebol profissional em países que nem fronteira tinham ainda? Ah, o Zaire jogou a copa de 74 - e a campanha deles demonstra o meu argumento. Irã e Iraque viviam em guerra até os anos oitenta, enquanto os países dos Emirados Árabes só decidiram ser "cidades turísticas" nos últimos 20 anos - até a ida de nomes como Toninho Cerezo para aqueles países, não se jogava futebol. Já o lado dos "tigres asiáticos" (China, Taiwan e as Coréias, também em guerra até o fim dos anos 50) precisaram esperar que o craque de 82, Zico, resolvesse que ira "fundar" o futebol por lá. América do Norte, só depois do Pelé - seja pela seleção de 70 ou pela passagem pelo Cosmos. Ou seja: hoje até faz sentido em pensar um torneio com a representação de todos os continentes; mas alguém acreditaria que uma empresa se propusesse a colocar um tostão num campeonato para ver um time da África do Sul (em apartheid, diga-se de passagem) com um time de Osaka em 1983? Impensável.

Tudo isso para tentar responder as perguntas que fiz no início deste e-mail: Grêmio e Internacional, ao invés de ganhar alguma coisa com essas atitudes infantis, apenas perdem. Quantas cidades no mundo inteiro tem dois campeões mundiais? Milão, Madri, Buenos Aires e Montevidéo, se não me falha a memória. É difícil encher uma mão. Ao invés de se desvalorizarem mutuamente, poderiam promover torneios mais úteis que o Gauchão com, pelo menos, campeões do mundo daqui da américa do sul. De repente uma excursão conjunta até Madri para jogarem contra o Atlético e o Real, ou até Milão e enfrentar Milan e Inter, em um quadrangular, reforçar laços e mostrar para eles que é mais lucrativo comprar direto dos fornecedores do que dos clubes portugueses depois de um ano. E isso não é apenas um "devaneio pacifista"; é uma constatação óbvia aos olhos dos que já conseguem discernir que o futebol agora é um negócio. E eu prefiro que essa união entre "inimigos" (que é uma ideia ridícula) para fazer frente aos times da europa do que acabar como o futebol inglês, torcendo para os times dos sheiks árabes.

Dirigentes: deixem a chacota com os torcedores, e que esses façam piadas só com seus amigos (bem próximos, para evitar brigas). Esse é o devido lugar. Vocês não tem nada a ver com a briga entre a FIFA e seus patrocinadores. Endossar essa "diferença" é deixar de ganhar dinheiro para dar dinheiro para aquele amontoado de urubus que não decide nada a favor de times sul-americanos. Tenham o mínimo de inteligência e profissionalismo.

Saludos,
Fagner dos Santos