Carlos Corrêa / Interino
Como acontece toda temporada, as primeiras semanas do ano são dedicadas menos ao aspecto tático e mais às transferências de jogadores. É a época em que se fala de valores astronômicos e que reagimos com naturalidade, afinal de contas, neste ambiente salários de R$ 300 mil, R$ 500 mil não soam absurdos, já que o futebol não parece fazer parte da realidade econômica do resto do país, certo? Errado.
Talvez pelo fato de o notíciário esportivo tratar quase que exclusivamente dos clubes da Série A, se tenha a impressão que todos os jogadores nadam em dinheiro, quando a realidade é bem distante disto. Para me inteirar mais sobre o assunto, na última quinta-feira, fui até a sede do Sindicato dos Atletas Profissionais do RS conversar com o presidente Paulo Mocellin. E quanto mais se sabe, mas se vê como é equivocada a generalização que se faz acerca dos jogadores. Para ficar mais fácil, vamos dividir em alguns tópicos, certo:
SALÁRIOS
O Gauchão conta com 12 times, a Divisão de Acesso com 16 e a Segunda Divisão com 12. Se todos os times registrarem 32 atletas, temos 1.280 atletas empregados — nem todos são profissionais, mas isso falaremos logo em seguida. O sindicato calcula que temos mais de dois mil jogadores em atividade (ou buscando uma) no Estado. Não se enche uma mão com jogadores que ganham mais de R$ 400 mil ou R$ 500 mil. Essa é a realidade de Inter e Grêmio e mesmo assim em casos bem específicos. No Interior, a coisa muda de figura e muda de forma graúda. O piso salarial para atletas de clubes da Série A é de R$ 1.650; para a Divisão de Acesso é de R$ 1.500; e para a Segunda Divisão, é de R$ 1.320. Como se vê, nenhum deles alcança sequer dois salários mínimos. Há relatos de casos (não raros) em que na carteira o jogador recebe o piso, mas na prática não vê toda a cor do dinheiro. O dirigente chega, paga R$ 500, R$ 800 e completa com algo do tipo: “Não posso te pagar mais que isso, desculpa. Se não quiser, tem quem queira”. E sempre tem quem queira — até porque contas precisam ser pagas. Também há casos em que os jogadores sabem do histórico de atraso de salários de alguns clubes — o que, assegura o sindicato, são exceções —, mas aceitam mesmo assim, apostando na oportunidade como uma vitrine, torcendo para que outra equipe os contratem.
MERCADO
Há um artigo no regulamento da Segunda Divisão que limita em três o número de atletas acima de 23 anos. Segundo consta, para 2017 o trecho será revisado e agora poderão ser até quatro atletas e a idade limite passa de 23 para 24 anos. Seja como for, o surrealismo é o mesmo. Vamos dar um exemplo. O Time X pode ter 30 jogadores no grupo, dos quais 15 têm acima de 24 anos. No entanto, a cada partida, só três podem assinar a súmula. A justificativa é bem intencionada: promover as categorias de base. Na prática, no entanto, ao invés de dar melhor estrutura para jogadores mais jovens, o que acontece é a contratação de jogadores amadores que, surpresa, não precisam receber o piso salarial. Há também outro artigo que limita em três o número de atletas que já tenham disputado a Série A ou a Divisão de Acesso do Gauchão (ou qualquer outra primeira divisão de um Estadual). Pode parecer pouca coisa, mas não é. O Campeonato Gaúcho termina em maio e muitos dos clubes ali encerram suas temporadas. Ou seja, para uma parcela significativa dos atletas, a Segunda Divisão é a única opção no Estado para se manter empregado num clube de futebol. Com tantas restrições, os clubes pensam duas vezes antes de uma contratação. “Eu, que sou atacante, ainda consigo. Mas zagueiro e volante é complicado. Todo ano vejo vários colegas meus em situações assim”, revela o experiente Alê Menezes, que conhece como poucos a realidade do futebol do interior gaúcho.
BICO
Sem alternativas nos clubes, vários jogadores recorrem a campeonatos amadores para se manter em atividade durante o segundo semestre. O mais curioso é que em alguns casos, os rendimentos chegam a ser melhores que nos clubes. Há um conhecido zagueiro da Dupla Gre-Nal, que não faz muito abandonou a carreira, que chega a ganhar R$ 2 mil de cachê por jogo nas ligas amadoras. A regra, contudo, não é essa. Em geral, atacantes recebem entre R$ 500 e 800 por final de semana, valores que tendem a baixar para R$ 200 e R$ 300 para outras posições. Levando-se em conta que o Gauchão termina em maio, são sete meses por ano para viver de bico.
FUTEBOL FEMININO
Se a situação é complicada para o futebol masculino, o amigo leitor já pode imaginar como é a realidade do futebol feminino no Estado. No Sindicato dos Atletas, por exemplo, não há nenhuma atleta registrada. Isso mesmo: nenhuma. Era de se esperar alguma evolução com a visibilidade dos Jogos do Rio 2016 ou mesmo com a mudança no regulamento da Conmebol, que agora obriga a todos os participantes da Libertadores a terem uma equipe de futebol feminino, mas não, segue tudo igual. Sendo assim, não será nada estranho se as primeiras equipes de Inter, Grêmio e todos os demais clubes gaúchos que miram uma vaga na Libertadores sejam formadas por atletas amadoras.
