Hiltor Mombach

A Seleção Brasileira nunca foi tão estrangeira

"É uma Seleção com ídolos mundiais, mas poucos ídolos pessoais. E para completar, o Tite convoca Daniel Alves. Haja coração."

Foto : Carl de Souza / AFP / CP

POR PAULO EGREJA* 

Quando Telê convocou Falcão (Roma) e Dirceu (Atlético de Madrid) para a Copa de 1982, a dupla se tornou os primeiros a jogarem uma Copa pelo Brasil atuando por times europeus.

Desde então, o número só aumentou: em 1994, já eram 11 "estrangeiros"; em 2006, 20, mesmo número que na última copa, em 2018. Na lista para o Qatar, com 26 convocados, são 23 atuando fora do Brasil. Mas até aí, já estamos acostumados com a evasão de atletas. 
Este texto chama a atenção para outra questão, que começa a crescer: os atletas sem nenhuma história em times brasileiros.

Ederson, Bremer, Marquinhos, Fabinho, Martinelli e Raphinha, praticamente 1/4 dos convocados para o próximo Mundial, são totais desconhecidos do torcedor brasileiro que não acompanha futebol europeu, pois são atletas que mal jogaram profissionalmente por aqui, se é que jogaram. Sem contar os outros da lista que atuaram por uma, no máximo duas temporadas no Brasil antes de partirem para o Velho Continente. E a questão é: até que ponto isso contribui para o distanciamento do público com a Seleção? 

Exceção às eliminatórias, a Seleção joga fora do Brasil com jogadores que atuam fora do Brasil, e, cada vez mais, com jogadores formados fora do Brasil. Assim como o número de "estrangeiros" foi crescendo ao longo dos anos, a próxima tendência que parece se confirmar é essa: veremos cada vez mais convocações com atletas nascidos aqui, mas com carreiras inteiras lá fora. 
Querendo ou não, isso muda a forma de torcer. A premissa das Copas de unir as torcidas porque unia os ídolos de cada torcedor já acabou faz tempo. E para quem não acompanha futebol europeu as convocações se tornam cada vez mais uma lista de desconhecidos. 

Não acredito que isso tenha solução, caso alguém me pergunte. É provável que daqui 30 anos tenhamos uma Seleção inteira de jogadores formados fora do Brasil e não há muito o que fazer - o menino da base quer sair, o time brasileiro quer vender e o europeu quer comprar - mas cabe a reflexão para a CBF, detentores de direitos de transmissão e até as futuras comissões técnicas: como engajar o torcedor comum a torcer para uma Seleção que parece tão distante? Mais do que isso, distante e longe de dar show em campo. 

É uma Seleção com ídolos mundiais, mas poucos ídolos pessoais.
E para completar, o Tite convoca Daniel Alves. Haja coração.
 
*Paulo Egreja é escritor