Hiltor Mombach

Acordem o Brasil!

Há um Brasil que dorme esquecido pelo próprio Brasil. Há de se acordar o Brasil do futebol

Há um Brasil que dorme esquecido pelo próprio Brasil. Há de se acordar o Brasil do futebol.
“Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem”. A citação é de Nelson Rodrigues em “A Pátria de Chuteiras”.
Como é dele esta outra frase: “Eu diria ainda que nós também ‘vivemos’ o futebol, ao passo que o inglês, o tcheco, o russo apenas o jogam. Há um abismo entre a seca objetividade europeia e a nossa imaginação, o nosso fervor, a nossa tensão dionísiaca”.
Quando o Brasil deixou de ser o Brasil? Quando, tomado de pudores, passou a imitar o futebol europeu. Despudorados, os europeus copiaram o Brasil. Estamos chumbados a uma nova mentalidade: não há futebol por aqui. Somos ótimos em vôlei, skate, surfe, bola de gude, menos de bola.
Onde está o Brasil esquecido? Milly Lacombe redescobre o Brasil em seu blogue no UOL: “É nos campos periféricos, de terra batida e de arquibancada ausente, que o futebol brasileiro se encontra com o que é na alma. Longe de ser uma ode à precariedade, a várzea fala sobre um tipo de paixão que faz enxergar em qualquer canto uma possibilidade de campo e, com ela, a chance de encontros, jogos, emoções”. 
“O drible, esse recurso tão nosso, nasceu numa várzea da vida, assim como alguns de nossos maiores craques. É no uniforme sujo de terra e de lama que a gente se entende como torcedores e como jogadores. Só se tira a várzea do que somos pagando um preço muito alto, que é o da zumbização do futebol brasileiro. Quanto mais emulamos o futebol europeu e sua organização limpinha de cacos e de resíduos do que alguns chamariam de alma, mais nos distanciamos de uma essência que seria bom jamais perdermos de vista”.
Vejam o Brasileiro de 2021. Nada mais asséptico. Cada jogo foi um mais do mesmo doloroso, aborrecido, sonolento. Pregam tanto que futebol é conjunto, que os garotos temem ser individuais. São robotizados no pré-mirim.
Milly Lacombe arremata: “Fica aqui meu desejo para 2022: mais várzea, menos UEFA”. No meu arremate, digo: sejam brasileiros, imitem Garrincha, Ronaldinho, Romário, Ronaldo... Imitem o Brasil!