Hiltor Mombach

Aos voluntários: faço das lágrimas minhas palavras

Só homens e mulheres admiráveis para se entregar de corpo, alma e coração nesta ajuda humanitária que parece não ter fim.

Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês. Escreveu, entre outros livros, o clássico “O Pequeno Príncipe”. Isto em 1943.
É autor de frases como "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos" e "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Estou tentando escrever uma coluna sobre os voluntários. Já chorei várias vezes ouvindo depoimentos de pessoas que perderam tudo nesta enchente que transformou o Rio Grande do Sul num oceano e mesmo assim estão nas ruas, nos abrigos, em barcos, canoas, descalças ou de galocha, ajudando. Não encontro palavras.
Aí lembrei de um outro livro de Saint Exupéry. Chama-se "Terra dos Homens".
Guillaumet, um dos personagens, sai vivo de uma tragédia e, abraçado pelos amigos, dispara com indisfarçável orgulho:
"O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer."
Só homens e mulheres admiráveis para se entregar de corpo, alma e coração nesta ajuda humanitária que parece não ter fim.
Faço das lágrimas minhas palavras.
COLAPSO GLOBAL
Transcrevo abaixo uma coluna escrita vai tempo.
"A pandemia do coronavírus me faz lembrar do livro "O Fim do Mundo", do historiador e jornalista norte-americano Otto Friedrich (1929-1995). Friedrich narra como a humanidade encarou momentos apocalípticos como o saque de Roma, a Inquisição, a peste negra, o terremoto de Lisboa, a Revolução Russa e Auschwitz, as perturbações, o histerismo que fez muitos acreditarem que o mundo estava acabando.
Em "Colapso", livro de Jared Diamond, autor de Armas, Germes e Aço, que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer, há uma narrativa diferente, de um mundo já globalizado.
Jared escreve: "A globalização torna impossível às sociedades modernas entrarem em colapso isoladamente, como a Ilha da Páscoa ou a Groenlândia Nórdica do passado.
Hoje, qualquer sociedade em crise, não importa quão remota _ pensem na Somália ou no Afeganistão como exemplos_ pode causar problemas para a sociedade prósperas de outros continentes, e também estão sujeitas à sua influência (seja para ajudá-la ou para desestabilizá-la). Pela primeira vez na história, enfrentamos o risco de um colapso global."
No livro "Homo Deus", Yuval Noah Harari relata que "assim, mesmo sem a certeza de que algum surto de um novo Ebola ou uma linhagem desconhecida de gripe não possa assolar o mundo e matar milhões, não vamos considerar que se trata de uma calamidade natural inevitável. Ao contrário, vejamos nisso uma indesculpável falha humana e peçamos as cabeças dos responsáveis.
No fim do verão de 2014, durante algumas semanas terríveis, pareceu que o Ebola estava levando a melhor sobre as autoridades encarregadas da saúde global. Foi quando criaram apressadamente comitês de investigação. Um relatório inicial publicado em 18 de outubro de 2014 criticava a OMS por ter reagido de maneira insatisfatória à eclosão do vírus; a culpa pela epidemia recaiu sobre a corrupção e a ineficiência do ramo africano dessa agência de saúde. Mais críticas foram dirigidas à comunidade internacional como um todo por não ter reagido com rapidez e energia suficientes.
Essas críticas partem da premissa de que a humanidade dispõe do conhecimento e dos instrumentos de prevenção; se mesmo assim uma epidemia sai do controle, isso se deve mais à incompetência humana do que à ira divina".
Lendo Yuval Noah Harari, lembro que a China retardou ações que poderiam conter vírus para fugir de embaraços políticos. O governo tratou de constranger quem tentava alertar sobre o possível surto, transformado depois em pandemia.
E que entendidos no assunto apontaram a demora do governo da Itália em restringir voos do norte para outras partes do país no início da epidemia como um dos fatores que levaram ao caos total.
A frase de Jared Diamond é definitiva: “Pela primeira vez na história, enfrentamos o risco de um colapso global."
Pois estamos vivendo este colapso global. Passada a pandemia, pelo menos a fase mais crítica, vemos o mundo explodir em crises ambientais em todos os continentes. É vergonhoso o descaso. Vai algum tempo, em reunião da ONU, 66 países concordam em zerar emissões de carbono até 2050. Ora, um assunto urgente, urgentíssimo, é jogado para 2050!
Onde vivem essas pessoas? Em que bolha estão?