Hiltor Mombach

Aranha no país do racismo institucionalizado

Escrevi ontem que “os que chamaram Aranha de “veado” na quinta-feira ratificaram os que haviam chamado o goleiro de “macaco” na partida anterior, avalizaram o gesto racista.
Patrícia fez escola, tem seguidores.
O termo “veado” não retira a ofensa, antes é um agravante pois está escorado pela impunidade.
O grito “veado” é outra esparrela da imprensa”?
Recebi e-mails de gremistas indignados.
Perguntando se só a torcida do Grêmio tem infiltrados racistas.
Não.
Recentemente a BBC Brasil (http://www.bbc.co.uk) trouxe reportagem com o título “governo reconhece ‘racismo institucionalizado’ apontado pela ONU.
Trechos.
“O governo brasileiro reconheceu e reconhece sua responsabilidade e criou a Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003. O comentário, enviado à BBC Brasil pela secretaria com status de ministério, responde a um relatório divulgado pela ONU.
O órgão mundial afirma que o racismo “permeia todas as áreas da vida” no Brasil. As Nações Unidas concluem que o país vive um “mito de democracia racial” e que há “racismo institucionalizado” e uma “ideologia de embranquecimento” na sociedade brasileira.
Tanto a ONU quanto o governo, entretanto, também destacam avanços nas políticas para afrodescendentes no Brasil.
O texto do relatório informa que o racismo permeia todas as áreas da vida no país e que é difícil para os negros discutir o tema, já que “o país vive um mito de democracia racial”.
Segundo a ONU, o desemprego é 50% maior entre afrodescendentes e a média salarial dos brancos, por sua vez, é o dobro do salário dos negros.
Enquanto a expectativa de vida entre os negros não passa de 66 anos, a dos brancos é seis anos maior.
Mais da metade dos negros não tem saneamento básico adequado no país - a média chega a 3 em cada 10 brancos.”
OK. Isto isenta os torcedores que chamaram Aranha de “veado” na quinta-feira?
Não.
Escudar-se num relatório nada é mais do que tentar justificar o racismo.
Não bastou atacar Aranha uma vez.
Foi preciso retomar a ofensa, torná-lo vilão outra vez, escancarar bem escancarado o racismo, fazer valer o relatório.
Ao denunciar o fato, o cidadão Aranha está fazendo hoje o que Pelé deixou de fazer nos tempos em que jogava futebol.
Os “avanços nas políticas para afrodescendentes no Brasil” estão se dando a fórceps graças aos Aranhas brasileiros.
O relatório deveria, isto sim, servir de base, exemplo, para os gremistas que gritaram “veado” (estancando outro grito, o de “macaco”), saudassem o goleiro na quinta-feira, relegando inclusive o fato de ele ser um rival clubístico.
Mas não.
Vivemos num país onde quem ataca não dá o direito de revide e Aranha teve a ousadia de colocar os pingos nos is.
Ou, para os racistas, no país do racismo institucionalizado, onde tudo pode.