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Uma surpreendente notícia nos últimos dias no campo desportivo é que sócios do Grêmio, mesmo proprietários de cadeiras, devem pagar para assistir ao jogo inaugural na Arena. Foi em 1976, com 16 anos, quando comprei o título patrimonial do Grêmio FBPA. Era office boy na Forjas Taurus e por muitos meses veio o vendedor cobrar a prestação lá na sede da Estrada do Forte. O clube ao qual me associei tinha equipe de futebol, ginásio poliesportivo, equipes de vôlei, basquete, remo, atletismo, escotismo, baile de carnaval e bloco, piscinas e até uma ilha onde fui durante a infância com meu pai, detentor de Título Remido do Grêmio. Isto tudo se volatilizou ao longo dos anos. O pacto que se renovou nesta associação foi se restringindo ao campo do futebol. Os sócios se mantiveram pagando mensalidades caras em troca do acesso aos jogos do Grêmio. Já na maturidade profissional, tive renda suficiente para acessar uma cadeira cativa; na verdade duas, às quais frequento e pago regularmente nos últimos 16 anos. No Olímpico, vimos penando com a invasão de não proprietários sobre nossas cadeiras e não foi nem uma ou duas vezes assistimos aos jogos em pé ou com pessoas postadas na frente, por excesso de lotação no espaço das cadeiras “cativas”; certamente permitido pela administração do estádio. Creio que a tudo suportamos em nome da Arena do Grêmio. Lá tudo teremos; será a remissão de todo este passado. Com expectativa, fizemos a migração para o futuro estádio e cumprimos todas as orientações, prazos e compromisso de custos decorrentes da promessa de acessos e garantia de conforto, modernidade e civilidade no novo estádio. Eis que, surpreendentemente, os sócios “proprietários” e os donos de cadeira “cativa”, para acessarmos o jogo inaugural na Arena, todos teremos que pagar ingresso como qualquer público não contribuinte com o clube. Há aqui uma tripla infração. Primeiro, a quebra de um contrato: pagamos as anuidades para ter acesso garantido a cadeira em dia de jogos. Não nos importa shows e eventos de terceiros. O que temos e queremos é propriedade da cadeira nos eventos do Grêmio. Tanto este é o contrato e a tradição que a cadeira leva nossos nomes gravados, na pessoa física. Logo, pago para acessar um benefício que está sendo, agora, negado. Segundo: há um problema ético nesta decisão. O badalado processo de migração levou-nos a crer, e continha a promessa, que estaríamos no histórico dia da inauguração da Arena. Esta regra foi alterada no meio do caminho, mais precisamente, há tres semanas. E sem a adequada e correspondente comunicação aos sócios. Para migrar e votar nas recentes eleições recebeu-se mensagens diárias por diferentes meios, por semanas a fio. Inclusive mensagens no celular. Para comprar ingresso para a inauguração (e nunca acesso as minhas cadeiras, com meu nome), não vi ou recebi mensagem alguma. Por fim, há um problema moral. Como num plano cruzado esportivo, o processo de venda de ingressos para sócios foi desencadeado imediatamente após o processo eleitoral do Clube. O futebol “profissional” tornou-se um lugar onde tudo pode acontecer. Um lugar onde não há códigos, direitos, tradição nem compromisso de reciprocidade. Como nas arenas da Roma antiga.
Léo Voigt – Sócio Patrimonial e Cadeiras N76 e N84