Hiltor Mombach

As cínicas declarações de amor dos jogadores

Há uma aridez, um vazio e um cinismo escancarado no enganoso manifesto de amor da imensa maioria dos jogadores quando da contratação por algum clube.

Há uma aridez, um vazio e um cinismo escancarado no enganoso manifesto de amor da imensa maioria dos jogadores quando da contratação por algum clube.
Patético, o funesto manifesto tenta exprimir, com sarcasmo, uma paixão inexistente. A nata dos nababos, soterrada em montanhas de dinheiro, talvez tente, com tal demonstração de afeto, comprar a afeição do torcedor desavisado, o mais humilde, aquele que passa o pires e vasculha as lixeiras, no combate à frenética e devastadora fome.
Há um Brasil que se verga deleitado ao jogador beijoqueiro, que baba no escudo da camiseta um amor falso, oportunista. 
Eis a verdade: é o dinheiro que move paixões tão repentinas. Mesmo quando o contratado revira sua infância e juventude e encontra ali fortes ligações com o time contratante, justificando assim o incondicional amor, oriundo de um tempo em que ainda era imberbe, mesmo assim, cada palavra está carregada de dólares e euros.
Amigos, o cinismo desperta no torcedor desavisado um fascínio mortal. 
Imaginem um jogador que desembarcasse dizendo: "Vim pelo salário. Vou honrar a camiseta, deixar tudo em campo, pelo salário. Aceitei porque era a melhor oferta. São R$ 20 milhões por ano." Como soaria verdade tão escarrada? 
Porém, há um discurso que parece decorado pela imensa maioria desde que o futebol é comércio: "Tinha uma proposta maior. Pesou meu amor por este time. Reduzi meus vencimentos drasticamente. Faria de tudo por esta camiseta". 
É isto que o torcedor menos avisado quer ouvir, um juramento de paixão desmedida, mesmo que falsa. Ele até pode fazer tudo pela camiseta, desde que todo o mês pingue na sua conta bancária R$ 1,5 milhão ou mais. 
Estamos diante de um amor que cresce na separação. Diante de uma rescisão de R$ 15, R$ 20 milhões, a força da afeição surge com a força de um vulcão em erupção. É como na música: "Eu gosto, que eu gosto / Me engana, me engana, me engana/ Que eu gosto, eu gosto / Me engana, me engana, me engana/ Que eu gosto, eu gosto..."
O leitor retrucará, incrédulo, não ser possível tamanho cinismo, fingimento. Os mais jovens não devem lembrar desta frase: ‘Eles fingem que pagam, eu finjo que jogo’. 
Em 2001, quando jogava no Flamengo, Vampeta deu essa declaração após uma partida, expondo a insatisfação com o atraso nos salários do clube.
Passado algum tempo, chamado a explicar, não apagou o incêndio. Colocou mais gasolina:
“Tem uma galera aí”, disse, dando alguns nomes, para arrematar: “Eles são meus amigos, mas é verdade. Quando encerrarem a carreira, vão poder falar aqui, também”.
Resumo da ópera num arremate simples: jogador joga e clube paga.