
Inicio a minha manifestação aos internautas, após o jogo contra o Mazembe, pedindo desculpas por não ter vindo para o diálogo logo após a partida, pois realmente fiquei muito abatido, posso até usar o adjetivo arrasado, já que a nossa derrota foi inesperada e fora de um contexto de planejamento e de convivência harmoniosa com a torcida.
A história de um clube é feita de momentos de grandes conquistas, mas também de algumas derrotas; assim não é diferente no Sport Club Internacional, um grande clube, com mais de 100 anos, orgulho de mais da metade do Rio Grande do Sul, que na última década alcançou seu ponto culminante no momento em que obteve diversos títulos internacionais, tendo como ápice o Mundial do Japão.
Lembro, entretanto, de momentos de profunda tristeza como torcedor colorado, por exemplo, em 1º de novembro de 64, dia do meu aniversário, em uma decisão de Gauchão no Olímpico, quando fomos derrotados por 3 a 0. Após isso, em 68, no Gre-Nal de 4 a 0 no Olímpico, quando era nosso treinador Osvaldo Rola, dia em que estreei uma bandeira imensa, mas que logo foi colocada no esquecimento. Passaram-se os anos, houve muitas vitórias e poucas desilusões, pois o que desilude é a derrota inesperada. Nos anos 80 e 90, praticamente não ocorreram derrotas inesperadas, com exceção daquele jogo pela Copa do Brail, em casa, quando perdemos para o Juventude – uma verdadeira tragédia.
Em 2002, tornei-me presidente do Internacional. Após um ano de grande dificuldade, iniciou-se um crescimento da entidade e, a partir daí, pode se dizer que começaram a acontecer alguns revezes inesperados: lembro de um Gre-Nal no Beira-Rio, com o Grêmio à beira do rebaixamento e nossa torcida representando 99% do estádio, mas perdemos por 1 a 0, com gol de Christian. Ainda em 2002, disputávamos a classificação para a Libertadores depois de muitos anos e, na partida contra o São Caetano, no Anacleto Campanella, poderíamos empatar, mas perdemos por 5 a 0. Para mim, uma derrota inesperada. Mais adiante, em 2006 – que acabou sendo um ano de muitas glórias para nós colorados – empatamos um Gre-Nal, em um Beira-Rio lotado, com o pior time da década do nosso adversário e perdemos o título gaúcho.
Em todas essas oportunidades, como acontecia comigo quando menino – entre 64 e 68, fiquei muito abatido, perdi a fome e tive dificuldade para dormir. O que aconteceu em Abu Dhabi, mais uma vez, me traz de volta esse sentimento já vivido nessas ocasiões elencadas e não preciso mais adjetivar como ainda estou me sentindo como torcedor colorado e como integrante de uma delegação que cruzou o Oceano Atlântico, acompanhada por 8 mil pessoas, fato inédito para um clube brasileiro.
O Inter "baqueou" diante de uma equipe africana sem nenhuma tradição, mas agora, como lá atrás nas ocasiões referidas, nós colorados sempre recobramos nossa energia, nosso vigor e nosso amor pelo Inter, na certeza de que este clube faz parte de nossa vida de forma tão importante e que, cada vez mais, crescerá e atenderá aos anseios de todo esse povo com a conquista de mais títulos. Por pior que seja a derrota e, foi terrível, não há desonra que possa nos abater, pois jogamos mal, mas os adversários mereceram a vitória. Nossos atletas, que tantos triunfos já nos proporcionaram, lutaram o que puderam para que o resultado fosse outro.
Nossa história não termina numa derrota para o Mazembe e, fora o orgulho de três títulos brasileiros, 39 gaúchos, 65 anos de liderança em Gre-Nais, duas Libertadores, uma Copa Sul-Americana e um título mundial, temos em disputa um terceiro lugar no presente da Copa do Mundo de Clube Fifa, que no Brasil apenas São Paulo e Corinthians, juntamente ao Inter, disputaram. Na sequência do próximo ano, teremos uma Libertadores e uma Recopa Sul-Americana, além dos certames nacionais.
Fazemos parte de cinco clubes brasileiros - Santos, Cruzeiro, Flamengo e São Paulo – que nunca estiveram na segunda divisão. Essa derrota, portanto, não nos desonrou, mas, ao contrário, fez crescer ainda mais o nosso amor pelo Internacional, a quem acompanharemos para o resto da vida com a dedicação costumeira, tendo certeza de que é melhor uma derrota em Abu Dhabi do que uma vitória em Recife.
Leia As consequências de uma derrota inesperada - Parte 2
Leia As consequências de uma derrota inesperada - Parte 3
