O Inter não teve um jogador da base como titular do time principal nos três primeiros anos da gestão Barcellos.
Foram investidos cerca de R$ 90 milhões.
Para 2024, primeiro ano do segundo mandato de Barcellos, o investimento será de R$ 44 milhões.
E, pelo andar da carruagem, outra vez nenhum garoto terá sequer chance de se firmar no time titular. Embora a promessa de campanha de Barcellos feita no final de 2020 que o time titular teria quatro atletas da base.
O hino do Inter leva o nome de "Celeiro de Ases". Cometendo uma verdade exagerada diria que é hoje "depósito de ases". Para entender os motivos que levaram o clube a não revelar mais garotos foi ouvir quem entende do riscado.
Lembrando que o Inter se despediu da Copa São Paulo na segunda fase levando 4 a 0 do Fortaleza. Fora o baile. Se serve como consolo, times como Galo, Botafogo, Bragantino, Fluminense e Vasco também foram eliminados.
A entrevista que segue é com Felipe de Oliveira. Foi conselheiro de 1995 a 2010 e de 2018 a 2023. Foi direto do departamento jurídico em 1994 e da base em 2000/2001. Atuou como vice do Parque Gigante em 2001 e é diretor-geral da base até o final deste mês. Tem curso de gestão de futebol e de executivo de futebol.
O Inter sempre foi formador de jogadores mas nos últimos três anos nenhum se firmou como titular. Por quê?
Penso que, primeiramente, que não é um fato limitado aos três últimos anos, mas, de qualquer maneira, é importante diferenciar formação e revelação. A formação se dá durante o tempo que o atleta se desenvolve no ambiente de base e a revelação se dá no processo de desenvolvimento final e aproveitamento que já acontece no profissional. Esse processo de revelação tem sido mais lento em virtude de vários fatores. Vamos pegar um exemplo: o Johnny vai para o profissional no ano de 2019, quando joga um total de 15 minutos no ano. O processo de revelação, até ele se firmar e ser considerado titular indiscutível do time demorou pelo menos três anos. Existem vários fatores para que isso aconteça, mas, como exemplo, posso afirmar que o processo de revelação em um Clube grande, com muita exigência, fica comprometido em períodos de seca de títulos e de muitas trocas de treinadores, como ocorre desde 2016. Isso dificulta o processo porque a pressão pelo resultado, invariavelmente, faz com que a confiança das comissões técnicas seja depositada muito mais em jogadores afirmados e experientes, do que nos jovens formados na base, o que leva a um pequeno aproveitamento na equipe titular.
Mudou alguma coisa no clube na área de formação?
Mudou muita coisa, tanto na melhora da estrutura do CT de Alvorada que há muitos anos não recebia investimentos significativos, na ampliação da rede de captação que hoje abrange uma cobertura em todas as regiões, na construção de uma forma de jogar parecida do Sub14 ao Sub17, na definição do DNA do jogador colorado e na ênfase ao talento individual.
Há intercâmbio entre os profissionais da base e do time principal?
Toda semana, pelo menos quatro ou cinco atletas da Base participam de treinamentos no Parque Gigante com o grupo profissional.
Do grupo atual quem teria condições de brigar por titularidade no time principal em 2024?
Diante da qualidade e experiência dos atletas que integram a equipe titular, levando em consideração que a categoria do Inter Sub-20, é bastante jovem com a grande maioria dos atletas estarem no penúltimo ano da categoria, não vejo a possibilidade de nenhum deles ser titular nesse ano. Precisaríamos de atletas capazes de colocar Rochet, Bustos, Mallo, Vitão, Robert Renan, Mercado, Renê, Aranguiz, Maurício, Alan Patrick, Valência, Wanderson, Alário, dentre outros no banco, o que, convenhamos, para um rapaz de 18 anos seria bastante difícil.
Não havia no grupo um goleiro para ser reserva de Rochet?
No grupo principal os reservas de Rochet são Ivan, Keiller e Anthony. Anthony é um goleiro formado pela base, nascido em 2002. É um excelente goleiro e na minha opinião, no futuro, será goleiro titular do Inter. O goleiro titular do Sub-20, que não jogou a Copinha em virtude de uma fratura na mão, ocorrida no final de dezembro, Kauan Jesus, ao meu ver tem totais condições de também integrar o grupo. Além deles, o Émerson Júnior, recentemente emprestado ao Atlético-GO, também foi formado na base.
A eliminação na copinha com goleada é consequência de algum fator?
Sim. O principal fator era a diferença de força e de entrosamento entre os dois times. O time do Fortaleza tinha, no time titular, sete jogadores nascidos em 2003, um em 2004 e três em 2005. Diante de várias circunstâncias, como a necessidade de acelerar o processo de formação dos jogadores (possibilitar a entrega de jogadores mais jovens ao profissional), somado ao número de lesões (seis jogadores), ao fato de que já estarem no profissional jogadores que poderiam estar na Copinha, como Lucca e Lara, além do fato de termos encontrado uma categoria com poucos jogadores nascidos em 2003 são fatores que pesam no desempenho. Diante dessa realidade fomos com um time mais jovem, com o intuito de dar experiência e competição para eles nesse ano, nosso time que entrou em campo tinha dois jogadores nascidos em 2003, um em 2004, três em 2005, três em 2006 e um de 2007.
Se paga o preço quando se enfrenta um adversário que alia força e qualidade. Claro que a goleada não era esperada e não aceitamos, mas o nosso foco para a Copinha era, dessa vez, a formação de jogadores de talento para serem aproveitados pelo profissional e não o resultado.
