Os gaúchos, mesmo com divisão entre duas torcidas apaixonadas, têm convivido com o desafio de sediar a Copa de 2014. Para os colorados é a afirmação da supremacia do Campeão de Tudo da última, coroada com o Beira-Rio como sede Copa do Mundo. Já os azuis, sonham com o erro de passe da bola para armar contra-ataque nas bandas da sua arena, porque acima de tudo, o orgulho gaúcho não quer perder esse campeonato.
Mesmo com toda nossa rivalidade futebolística, as forças políticas e institucionais adoraram um partido e uma causa única: a defesa do interesse público pela sede da copa do mundo nos pampas. Tudo em nome da grande oportunidade de revelar ao mundo a pujança e a fidalguia gaudéria, alavancando ainda mais o crescimento econômico, pela geração de empregos, produção industrial, oferecimento de novos serviços, incremento do turismo e consolidação de pesados e investimentos de infra-estrutura conquistados junto ao Governo Federal.
Contudo, um aparente parceiro pode colocar tudo a perder. O que deveria ser uma parceria do Internacional na remodelagem do seu estádio para atender as condições da FIFA como sede da próxima Copa do Mundo, tem se revelado misteriosa e inconfiável. Depois da autorização do Conselho Deliberativo do Inter para executar as obras do Beira-Rio, a Andrade Gutierrez lançou meses de angustia, ora pelo silêncio, ora pela notas de vagas promessas,. Mas agora “saiu da toca” e resolveu debitar seu desinteresse ou incompetência no glorioso e eficiente Banrisul.
Toda a pressão dos grupos econômicos e gestores da CBF e FIFA, não só induziram, mas impuseram a privatização dos estádios públicos e a terceirização dos privados. Tudo em nome de que somente grandes empresas teriam garantias de obter financiamento e viabilizar obras de construção ou reforma dos estádios de futebol. E agora, justamente a poderosa AG demonstra fraqueza na oferta de suas garantias e ainda quer transferir a responsabilidade ao banco estatal. Cadê sua grandeza e capacidade de investimento?
Surreal ou deboche a inteligência dos gaúchos. Toda essa demora – meses para elaborar a minuta contratual e mais de 70 dias sem assinar o contrato – além de injustificável, encobre a tática de preparar sua desistência da parceria ou álibi para evitar uma indenização por perdas e danos causados ao Inter – alguns já reais, como a perda da Copa das Confederações. A responsabilidade é da Andrade Gutierrez e não do Banrisul. Parece mais o velho jeitinho de querer levar algo mais, aproveitando do interesse do Poder Público. Se não consegue parceiros para formar a Sociedade de Propósitos Específicos ou garantir o financiamento, o que esperar de solidez na execução das obras!
Mas além da empresa, precisamos cobrar posição da direção do Inter. Como obteve a legitimidade política e aprovação do Conselho Deliberativo, estranha sua falta de firmeza na definição dos rumos da reforma do estádio. Demonstra fraqueza e omissão diante da grandeza do Internacional. Como conselheiro participei do processo e fui um dos 47 não “patrolados” pela maioria orquestrada pela direção, votando contra a parceria com a AG, onde dentre vários motivos, um era o temor da demora ou abandono que pode inviabilizar a sede da copa no Beira-Rio.
Assim, não é correto transferir a responsabilidade aos Poderes Públicos. Cabe a direção do Inter cobrar a imediata assinatura do contrato e sua execução. Mas como não se pode confiar nessa parceira, porque de parceiro e solidário não tem nada, melhor é partir para execução direta, com os recursos próprios, parceiros locais e apoio dos órgãos públicos, antes que seja tarde. Ainda temos tempo, força, coesão política e confiança do povo gaúcho, além do apoio da torcida colorada para conquistar mais essa taça. Mas a direção precisa desarmar a arapuca que montou e ter a coragem de ousar e recuperar a estima dos colorados. É agir ou pagar caro pela omissão e fraqueza!
ROGERIO FAVRETO, magistrado e Conselheiro do Internacional.
