Hiltor Mombach

Brevíssima história de uma fase romântica

Marco Sirangelo é administrador de empresas pela FGV e Mestre em Gestão Esportiva pela Loughborough University no Reino Unido.
Ele escreveu artigo que leva o título de “entre a glória e a bancarrota / O futebol brasileiro em sua última década romântica”. Recomendo a leitura na íntegra. Basta acessar https://medium.com/sem-firulas. É um retrato do nosso futebol contemporâneo. Reproduzo trecho de um capítulo específico, “contratações”. Para mostrar que nem sempre estivemos a reboque do exterior.
“Dentre as diferenças entre o mercado de transferência de jogadores no Brasil e na Europa, podemos destacar que os clubes europeus podem contratar jogadores em dois momentos da temporada, apenas. No início, geralmente entre junho e agosto, quando as grandes negociações acontecem, e num breve período entre dezembro e janeiro, quando o fluxo financeiro é consideravelmente menor. Assim, o período de maior aquecimento do mercado europeu se dá, principalmente, quando a temporada do Brasil está no meio.
O MERCADO JÁ FOI ASSIM
Com isso, atualmente é comum presenciarmos desmanches de elencos no decorrer do Campeonato Brasileiro, uma vez que a disparidade entre o que a Europa oferece, tanto em valores de salário ao atleta, quanto ao valor do passe devido ao clube vendedor, são praticamente irrecusáveis. Porém, esta realidade já foi bastante diferente, conforme demonstram alguns casos abaixo, todos com dados retirados de matérias da época e também do site Transfermarkt.
Em 1995, o Milan fechava a contratação do já citado George Weah, que viria a ser o melhor jogador do mundo naquele ano, por € 6,9 milhões, semelhante aos US$ 5 milhões que o Flamengo pagou à Parmalat pelo passe de Edmundo e ao Barcelona (US$ 7 milhões) por Romário neste mesmo ano. O português Luís Figo, melhor do mundo pouco tempo depois, desembarcaria no Barcelona pelo mesmo valor pago pela Parmalat para tirar Djalminha do Guarani (US$ 2 milhões).
Em 1996, o Palmeiras pagaria mais para repatriar o tetracampeão Viola do que a Juventus para trazer Zidane, tendência que se seguiu nos anos seguintes. Segundo matéria da Folha de 20/07/1999, o Palmeiras investiu US$ 20 milhões em contratações em 1997, enquanto o São Paulo, também com aporte externo, gastou US$ 13 milhões em 1998. O Corinthians chegaria a um total de US$ 25 milhões em 1999, mesmo ano em que o Vasco usou de US$ 14 milhões apenas para trazer Edmundo de volta, quase o dobro do que recebeu para vendê-lo à Fiorentina em 1997.
PERÍODO DE EXTRAVAGÂNCIA
O auge desse breve período de extravagância financeira dos clubes brasileiros, porém, coincidiu com o declínio do regime cambial adotado pelo governo federal, resultando na alta desvalorização do real em relação ao dólar em 1999. Em poucos meses, as parcelas mensais dos valores dos passes e também o salário dos atletas, em sua grande maioria pagos em dólar, multiplicaram-se, tornando a manutenção deste cenário inviável.
AÇÕES TRABALHISTAS E POLÍCIA
Por diferentes razões, em 2001 já estavam terminados os contratos de parceria firmados por Flamengo, Vasco, Palmeiras e Grêmio. Em 2002, Corinthians e Cruzeiro também encerraram seus contratos com a HMTL, previstos para durarem até o final da década. O legado desse período foi relacionado com intermináveis ações trabalhistas movidas contra os clubes, além de dívidas que se acumularam exponencialmente. As principais empresas envolvidas nas parcerias com o futebol, como a Parmalat, Cirio, ISL, HMTL e o Banco Opportunity, não somente retiraram seus investimentos, como também foram alvo de operações policiais mundo afora.
O cenário do futebol brasileiro no fim do século XX era insustentável, com custos elevados, receitas em queda, defasagens estruturais e dívidas impagáveis. Para piorar, os clubes do Brasil estavam na contramão de um forte movimento de profissionalização do futebol que atingiu principalmente a Europa e não foi seguido por aqui. Os jogadores brasileiros virariam alvo também dos clubes médios e pequenos, além de mercados emergentes no Leste Europeu e na Ásia.”
No arremate, Marco Sirangelo escreve: “A experiência de maior profissionalização do futebol através da Lei Pelé e da terceirização das gestões esportivas dos clubes resultou em memórias afetivas para os torcedores, agraciados por efêmeros grandes times, mas em duros legados financeiros que ecoam até hoje. A impressão é que o futebol brasileiro está sempre em uma reconstrução que não tem data para terminar. Desta maneira, se faz ainda mais necessário um novo processo de profissionalização, mas desta vez feito de maneira responsável e que procure fortalecer principalmente os clubes e não somente os times.