Hiltor Mombach

Capítulo do livro de Fernando Carvalho sobre Fernandão

Capítulo do livro de Fernando Carvalho sobre Fernandão

Segunda parte do capítulo sobre Fernandão:

O Fernandão estava vindo ao Brasil, para gozar suas férias, e através do Vagner Cruz marcamos um encontro em Goiás. Fui a Goiânia, almoçamos no Montana Grill daquela capital, — o mesmo restaurante que temos aqui no Inter, agora — e passamos cerca de quatro horas conversando. Foi aí que eu de fato conheci o Fernandão, assim como ele conheceu o nosso método de trabalho e os nossos objetivos. Era abril de 2004, e ali nós já estávamos dando o chamado tiro na lua — queríamos voltar às primeiras posições no Brasil para disputar a Libertadores e quem sabe chegar ao Japão. Mas era tudo, ainda, um desejo, a nossa vontade, o nosso sonho.

A conversa serviu para o atleta saber de muitos detalhes. Estava a par da nossa recuperação como clube, que agora pagava seus compromissos em dia. Quis saber do treinador, que era o Lori Sandri. “Ele me botou na reserva, no Goiás”, disse o Fernandão. “Será que agora vai ser diferente?” Eu afirmei que sim, era outro o contexto, e relatei que tinha já conversado com o Lori sobre o nosso interesse no passe dele, e o técnico tinha dito que o admirava muito. Além do que, afirmei que o grupo precisava de um jogador com as características dele; mesmo ele não tendo sido um goleador na temporada anterior, era certo que tinha a marca de ser jogador de conclusão. Enfim, tudo isso estava encaminhado. A conversa foi suficiente para estabelecermos um acerto entre o jogador e o Inter.

Logo depois dessa conversa, entrou no circuito o empresário Frank Henouda, credenciado pelo Olympique para realizar a transação. Ele nos informou que o Fernandão tinha sido sondado pelo Flamengo. Mas nós tínhamos o acerto verbal com o atleta, envolvendo salário e luvas. Faltava o acerto com o clube francês. De todo modo, o Fernandão me disse que precisava ir ao Rio para falar com o Flamengo, numa agenda acertada entre o clube carioca e o empresário. Mas ele me disse: “Se o Inter acertar com o Olympique, está tudo certo, porque eu já estou certo com vocês”.

Naquele momento, nós tínhamos dois jogadores das categorias de base que estavam se destacando muito, o João Guilherme e o Rodrigo Paulista. Da parte do Frank, que mora no Brasil e acompanha o futebol com atenção, ficamos sabendo que o dinheiro pretendido pelo clube francês não chegava bem a um milhão: eram 850 mil euros para indenizar o restante do tempo de contrato do Fernandão lá. Ao saber desse valor, eu disse que nós não tínhamos tudo isso para acertar com o clube de Marselha. E o Frank perguntou se nós não daríamos aqueles dois jogadores pelo valor desejado. Respondi que não, porque os dois jogadores tinham muito valor potencial, superior àquela quantia. Contrapropus que eles ficassem com uma parte do valor dos atletas, ganhando a opção de compra por valor fixado. Estipulamos em 25% do passe deles: 400 mil pelo Rodrigo, 450 mil pelo João Guilherme. E o valor total, para que o Olympique ficasse com a totalidade dos direitos dos dois jogadores, era 1,5 milhão de euros, cada um. Valor baixo, mas era um risco que pareceu de bom tamanho, de parte a parte.

O companheiro Vitorio Piffero passou um dia negociando com o Frank, no Rio, para acertar essa operação toda. O Fernandão, de sua parte, visitou o Flamengo, conheceu as instalações e tudo o mais, mas sempre firme na opção de vir para cá. Cabe lembrar que também atuou nessa intermediação, com destacada atuação, o empresário Jorge Machado, que foi quem trouxe o Frank Henouda para falar com o Inter — por aqui se vê um aspecto da complexidade dessas negociações, porque a vinda do Fernandão foi intermediada por três empresários e envolveu três jogadores.

De todo modo, foi concretizado o negócio. O Fernandão chegou em maio daquele ano aqui e ficou treinando até julho. Os comentários eram de estranhamento: quem era aquele jogador? Ele valia tanto assim para chegar e ficar mais de um mês só treinando? Ele demorava tanto assim a entrar em forma? De fato o atleta tem essa característica física, de demorar um pouco para adquirir as melhores condições. Isso sem falar que a negociação com os franceses também levou algum tempo até ficar totalmente desembaraçada, com tudo no lugar, atendendo a todas as partes. Mas nesse tempo de espera foi-se vendo que ele era um sujeito diferenciado. Aliás, duas pessoas, grandes profissionais e ótimos sujeitos, vieram falar comigo, sem um saber do outro, para comentar positivamente sobre o Fernandão. Um foi o zagueiro Sangaletti e outro foi o Élio Carraveta. E os dois observaram coisas parecidas: que ele ia nos ajudar muito, porque era um atleta focado, com capacidade de liderança, que demonstrava dentro de campo haver aprendido a cultura tática europeia. Enfim, as expectativas iam aumentando para vê-lo em atuação.

Até que todas as condições, físicas e contratuais, se estabeleceram, se não me engano numa quinta-feira, e no domingo teríamos Gre-Nal, pelo Campeonato Brasileiro, como revelado antes. O treinador já era o Joel Santana, nessa altura. O Fernandão ficou no banco, de início. Mas entrou no decorrer da partida, num arranjo todo particular, porque ele substituiu um zagueiro, Wilson Bolívar desceu para a zaga e enfim tudo se rearranjou. Ganhamos de 2 x 0, e o detalhe histórico que vale a pena lembrar é que o Fernandão estreou marcando um gol, nada menos que o milésimo gol em Gre-Nais. Ele marcou e o Sóbis contou para ele essa circunstância, enquanto comemoravam o tento.

Daí por diante ele se transformou naquilo que ele prometia ser: um grande jogador em campo e fora de campo, um goleador e um líder, uma pessoa da mais alta qualidade. A ponto de eu poder dizer que ele veio a ser o jogador mais importante da história do Internacional.