Hiltor Mombach

Carta fictícia de Índio para Fernandão

“Não sou homem das letras, mas guardei uma frase de Nelson Rodrigues que dizia que “o patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente”.
Para resgatar o passado que se insinua no presente lembro de um trecho de uma poesia de Jayme Caetano Braun, denominada Galo de Rinha: “No teu ímpeto guerreiro / Vejo um gaúcho avançando/ Ensangüentado, peleando/ No calor do entreveiro!”
Vertendo sangue pelo nariz fraturado e pela boca rasgada eu segui peleando naquela batalha histórica contra o Barcelona em 2006. Tu estavas lá. Tu conheces o meu currículo, que alguns, generosos, dizem não ser de um simples mortal, mas de uma lenda: sete anos de Beira-Rio, 350 jogos com a camisa colorada, zagueiro com mais gols anotados (32) ao longo dos 103 anos do clube e 13 títulos, entre eles duas Libertadores, duas Recopas, um Mundial/Fifa e uma Copa Sul-Americana.
Como o passado se insinua no presente, mas não garante o futuro, não vou resgatar o que fiz, mas o que eu continuo fazendo aos 37 anos. Sabes quantos times levaram menos gols do que o Inter neste Brasileiro? Dois, o líder e o vice-líder. Sinal mais do que evidente de que atrás, no meu reduto, na minha casa, as coisas vão bem, obrigado! Sabes quantos times entre os 10 primeiros colocados marcaram menos gols do que o Inter? Um. Sinal de que é na frente que as coisas vão mal e precisam de arrumação.
Não sei o que pretendes ao me exilar na reserva pelo segundo jogo seguido. A reserva para um veterano surge como uma carta de aposentadoria. Gostaria apenas de te lembrar que ao me aposentar tu não aposentas a minha história. Sem mais, Índio.”