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Chinesinho, o ídolo esquecido que mora no Cassino / PARTE 1

Chinesinho, o ídolo esquecido que mora no Cassino / PARTE 1

Rafael Mano Diverio / Diário Popular de Pelotas

Rio Grande. "Era 1973 quando meu pai disse que me levaria, pela primeira vez, a um estádio de futebol. Era o Estádio Menti, em Vicenza, e fazia muito frio. Era inverno. Um inverno tão rigoroso que proibia uma criança de apenas seis anos sair de casa. Mas, para essa criança, era um sonho poder ver seu ídolo, o craque Chinesinho, jogar." As frases são de Roberto Baggio, um dos maiores jogadores da história do futebol italiano, durante entrevista em seu país. Chinesinho é o apelido de Sidney Colônia Cunha, um rio-grandino que mudou a história de clubes como Inter e Palmeiras e foi um dos primeiros jogadores de futebol a fazer carreira na Itália e nos Estados Unidos. Hoje, vive praticamente como o clube que o revelou (o Foot-Ball Club Riograndense): esquecido em algum lugar da história.

Chinesinho vive no Cassino. No sábado, dia 13, voltou a ser assunto, quando uma comitiva da Chapa 3 às eleições do Inter resolveu visitar o grande craque em sua casa. Encontraram um homem sentado em uma poltrona, mexendo apenas os olhos. Por meia hora conversaram sobre jogos dele, lembraram equipes memoráveis, com aquele restinho de memória que o final dos anos 1950 deixaram. Mas, mais do que tudo, ouviram Marilene Dionello Cunha, mulher de Chinesinho. Companheira há mais de 50 anos. Hoje, além de esposa dedicada, ela é a memória, a voz, os braços e as pernas daquele que valia um estádio inteiro.

Marilene cuida de Chinesinho como fez a vida toda. Eles se conhecem desde sempre. "Eu tinha uns 11, 12 anos e brincávamos na rua, próximo ao colégio Salesiano. Gostava de jogar bola com eles", relembra. Aos poucos a amizade foi se transformando em outro sentimento – e o craque baixinho virou seu namorado.

Quando Chinesinho passava pela rua Buarque de Macedo em direção ao velho estádio Torquato Pontes, do Riograndense, Marilene ficava na porta observando. Ritual que repetiu quando seu namorado serviu ao Exército Brasileiro.

Rumo à capital gaúcha

O destaque no colorado rio-grandino fez brilhar os olhos do colorado da capital. Na maior transação da história de um time do interior para Porto Alegre até então, Chinesinho foi para o Inter. Se financeira e profissionalmente ir para os Eucaliptos foi melhor, para manter contato com Marilene ficou bem mais difícil. "Naquela época tínhamos que reservar o telefone." Como prova de seu amor e sua devoção, ela preparava biscoitos e outras guloseimas. "Tinha um motorista que ia para Porto Alegre e passava na frente da minha casa, o Jesus. Então às 4h eu saía e entregava a caixa para ele. E ele, muito colorado, levava para o Chinesinho lá no estádio", lembra, com aquela sensação de saudade nítida na voz.

Quando estavam começando a pensar no casamento, uma bomba: dirigentes do Palmeiras estavam em Porto Alegre para levar Chinesinho. E o Inter vendeu seu jogador mais caro.

Se em Porto Alegre a comunicação já estava difícil, em São Paulo ficou quase impossível. Começou a pressão pelo casamento. Após um tempo sem conseguir nem se falar, Marilene sentiu que havia perdido o namorado. Comunicou ao pretendente que estava cansada da vida daquele jeito. Então o meia palmeirense veio a Rio Grande no Natal e fez a proposta. "Lembro que era um frissom na cidade. O pessoal dizia: ‘imagina se ele vai vir de São Paulo pra casar’. Para piorar, dois meses antes das núpcias uma revista anunciou que ele estava noivo de uma artista. Bom, para resumir: só botei o vestido de noiva quando o vi entrando na igreja".

Após o casamento foram embora novamente para São Paulo. Poucos dias antes o campeonato paulista de 1959 tinha sido decidido em três jogos históricos entre Santos (com Pelé, Pagão, Pepe e outros) e Palmeiras (de Djalma Santos, Romeiro e, agora, Chinesinho). O Verdão levou a melhor e interrompeu uma série de títulos do time do Rei.

Mal chegaram em São Paulo e Chinesinho precisou viajar por dois meses. A Seleção havia convocado. Para não deixar Marilene sozinha, o grande amigo do rio-grandino deu a ideia: ela deveria ficar na casa de sua mulher. Assim começou a amizade com Djalma Santos, bicampeão mundial de futebol jogando na lateral-direita do Brasil. Amizade tão grande que dura até hoje – e Djalma é o padrinho de Sidney Dionello Cunha, único filho do casal. Por todo o tempo de Palmeiras a família do ídolo palmeirense foi também a família deles (Chinesinho não tem uma grande ligação familiar, já que teve pouco contato com a mãe e acabou criado pela avó, apesar de o apelido vir do pai, o também ex-jogador Chinês).

Cortado da seleção

Em 1962, Chinesinho foi pré-convocado para a Copa do Mundo, com outros 40 atletas. Vivia uma de suas melhores fases na carreira. Seu lugar entre aqueles que viajariam para o Chile estava certo. Mas naquela época a Seleção também já vivia de política. E era hora de convocar cariocas. Assim, o craque teve um dente arrancado e uma lesão forjada no joelho, após sucessivas pancadas. "Foi a única vez que vi meu marido chorar. Ele não era muito aberto e me contou tudo. O médico do Palmeiras apostou a carreira que ele voltava a jogar antes da Copa. Não deu outra: faltando dez dias para o embarque ele estava em campo."

Chinesinho pensou em abandonar a carreira, tamanha desilusão. Foi quando teve uma motivação extra. O presidente da Inter de Milão, Angelo Moratti (pai do atual presidente, Massimo) quis o rio-grandino. E não pagou pouco. Os jornais da época afirmam que o Palmeiras reformou o estádio inteiro com o dinheiro de sua venda. Além de contratar oito jogadores. O herdeiro de sua camisa no Verdão foi nada menos do que Ademir da Guia.

Ao chegar em Milão Chinesinho era o quarto estrangeiro. Na época, só três poderiam ser inscritos. Moratti ofereceu: poderia ficar parado ou ir para um clube menor. "Presidente, meu negócio é jogar bola", respondeu o craque. Assim, após fazer apenas alguns amistosos, o meia-atacante foi para o modesto Modena.

No ano seguinte foi para o Catania, na Sicilia. Na época em que a máfia ainda tinha amplo poder. "Mas foram dois anos excelentes. Morávamos em uma casa belíssima, com vista para o mar. Ele (Chinesinho) levava os pescadores para os jogos e, em troca, eles nos davam e até cozinhavam os peixes. O único problema era que o Catania não pagava em dia. Mas também em nenhum lugar nos cobravam nada."

Dois anos depois do Catania, a Juventus, maior campeã da Itália, levou o ex-jogador do Riograndense. Sua missão era bem complicada: substituir o ídolo argentino Omar Sivori, que fora para o Nápoli após brigar com o técnico Heriberto Herrera. Com fama de durão, o treinador obrigou o novo camisa dez a perder quatro quilos. Cada cem gramas acima do peso eram cem mil liras para a caixinha. "Foi o melhor Natal que passamos, meu filho ganhou muitos presentes. No final do ano vinha na ordem de pagamento as multas, que eram divididas entre os jogadores. Também, quando chegou aos 68 quilos que o técnico queria, nem água tomava. Ele botou na cabeça que nunca mais deixaria dinheiro na caixinha e assim foi."
Pelo alvinegro de Turim conquistou o campeonato italiano de 1966/67. Saiu do clube quando Herrera começou a namorar a irmã de Marilene. "Imagina se eu ia ficar no time. Iam dizer que eu só jogava porque era cunhado do técnico", disse à época.
Foi para o Vicenza. Lá começou a pensar no fim da carreira. Passou a cuidar do lado técnico. Ainda assim, por dois anos, fez o time ter o artilheiro do campeonato.