Chinesinho, o ídolo esquecido que mora no Cassino / PARTE 2
Por Rafael Mano Diverio / Diário Popular de Pelotas
Estados Unidos, antes de Pelé
Quando Marilene pensava que Chinesinho pararia de jogar, já com 38 anos, foi avisada que ele estava indo para o Cosmos, de Nova Iorque, pouco antes de Pelé, Carlos Alberto e Beckenbauer. Ela ficou para que o filho pudesse completar o ano. Porém, dois meses depois o marido estava de volta à Itália: fazer exibições e promoções em supermercados não eram seu forte.
Foi quando iniciou a carreira de olheiro e treinador. Na primeira, a que mais gostava, descobriu para o mundo um dos maiores carrascos brasileiros: Paolo Rossi. Além dele, Roberto Baggio (que virou amigo a ponto de telefonar para o ex-jogador) e Luca Toni também foram achados por Chinesinho.
Como treinador passou por Vicenza, Forli e Foggia. Então recebeu um telefonema do ex-presidente do Palmeiras, Nelson Duque, para treinar uma equipe na Arábia Saudita. O Al-Ittihad era seu time. O Al-Ahly, o rival. O técnico do Al-Ahly, seu novo amigo, Telê Santana. As famílias estavam sempre juntas. "O Telê aprendeu a jogar tênis com ele", diz Marilene. Mesmo com a grande amizade, um pequeno momento de briga: na final da Copa da Arábia, o Al-Ittihad venceu o Al-Ahly. E Telê ficou duas semanas sem ir na casa de Chinesinho. O rio-grandino permaneceu mais dois anos na Arábia antes de voltar para o Palmeiras, novamente a convite de Nélson Duque.
*Entregou o apito*. Como técnico, durou 14 jogos. Só perdeu para a Portuguesa. Em um treino um jornalista passou a questioná-lo, durante a atividade, sobre suas escolhas. Chinesinho, que não aguentava muito os repórteres, entregou ao jornalista o apito e pediu que continuasse o trabalho, pois ele estava fora. "Estava em uma padaria quando ouvi no rádio que meu marido não era mais técnico."
Quando pensava em abandonar para sempre o futebol, voltou à Itália. Foi para Bassano del Grapo. Ficaram dois anos, naquela que Marilene considera a cidade mais bonita. Foram para Modena, onde Chinesinho seria olheiro.
Em 1993 voltaram ao Brasil definitivamente. Chinesinho ainda se aventurou na Arábia, mas começou a ter sintomas de depressão e retornou a São Paulo poucos meses depois.
Foram morar na Praia Grande, interior de São Paulo. Os primeiros sintomas de que não estava bem começaram a aparecer. Ela insistia que ele procurasse um médico. Após muitas negativas do ídolo, quando voltavam de uma festa em que Chinesinho não tinha nem conseguido conversar com seus amigos, decidiu visitar um profissional. Foi constatado que ele sofrera diversos micro-infartos, que diminuíram a irrigação sanguínea de seu cérebro. Irreversivelmente, o jogador de mais sucesso que Rio Grande viu começou a perder a fala, o raciocínio e a locomoção. Começou a faltar dinheiro, já que viviam de aposentadoria do INSS. Aos poucos tudo o que foi conquistado ("para comparar, em uma carreira toda, acho que ele ganhou o que muitos ganham em dois ou três meses") precisou ser vendido. O médico indicou que ele fosse para um lugar calmo. Era hora de voltar para casa de vez.
Suas recordações (e são tantas) estão com dois escritores, que preparam um livro sobre o craque. Algumas fotos ele acabou dando a quem aparecia junto. É o caso de uma em que aparece cortando o cabelo de ninguém menos que Pelé. Até hoje Marilene recebe ligações de ex-jogadores como Djalma Santos e Zito. Ela fala deles como qualquer pessoa fala de seus amigos.
Rio Grande já fez uma homenagem a ele. Marilene diz não lembrar quando foi. O que causa estranheza, já que sabe detalhes sobre quase tudo da carreira do marido. Seja como for, parece pouco. Em uma cidade que celebra ex-prefeitos com estátuas, nomes de rua, estrada, praça ou que quer dar títulos de cidadania até para pessoas que nem sabem localizar o município no mapa, Rio Grande deve, no mínimo, uma menção a Chinesinho. Para que ele não fique esquecido em sua simples casa no Cassino. Que nem seu velho Riograndense.
E talvez nem precise esperar que vá reforçar o time de tantos outros craques no futebol do Paraíso. O ideal seria aproveitar que ainda está vivo, ainda que doente. Mas Marilene está bem. Viva, feliz, disposta. E ela é sua memória, voz, braços e pernas.
O que diz o site do Palmeiras sobre Chinesinho
"Um dos maiores camisas 10 da Sociedade Esportiva Palmeiras, Chinesinho, gaúcho de Rio Grande, veio como ponta esquerda do Internacional-RS, em 1958, para já no ano seguinte conquistar o Supercampeonato Paulista sobre o Santos de Pelé, com atuação destacada nas três partidas que decidiram o certame. Chinesinho marcou um dos gols no empate em 2x2 válido pelo segundo jogo da melhor de três. O Supercampeonato de 1959 quebrava um jejum de 8 anos sem títulos e dava início a uma era gloriosa e marcante na história do Verdão, que viria a ser conhecida como "A Primeira Academia".
