Hiltor Mombach

Ciúme de Londres

O londrino é feliz. Se não é, parece. Gostaria de ser londrino. Estou brincando:
gosto de ser gaúcho. O que eu tenho é ciúme dos londrinos. Para nós tudo é mais
difícil. Se não é, a gente faz parecer ser. Conheço um gaúcho que sofre de
síndrome de pânico toda vez que é atingido pela felicidade. Nosso negócio é
padecer no paraíso que é esta terra que quando não faz 40 graus faz menos dois e
que se divide entre colorados e gremistas, maragatos e chimangos e vou ficando
por aqui.

Em Londres tudo é irritantemente certinho. Dias atrás estou na
estação de Angel e o luminoso anuncia que falta 1 minuto para o trem. Um minuto
cravado e ele chegava. O luminoso anunciou que faltavam 2 minutos para o
próximo. Esperei. Dois minutos depois ele estava ali. Pode parecer patético:
senti saudades dos lotações de Porto Alegre. Nossos lotações sempre dão a
esperança de que, se você chegar meia hora atrasado no ponto, ainda vai dar.
Ponto nosso!

Ontem, fui ao supermercado. Não havia fila. Cada um passava
os seus produtos e entrava com o cartão! Uma chatice! Nós temos fila até para
comprar hambúrguer. Mais um ponto a favor! Aqui você só chama a atenção se sair
pelado na rua. E, mesmo assim, só da Polícia. Em Porto Alegre é só pintar o
cabelo de azul ou vermelho para parar o trânsito. Ainda olhamos uns para os
outros. Goleada nossa!

Estou dizendo que estou com saudades de Porto
Alegre e dos meus. E com um baita ciúme dos londrinos.