CONHEÇO OS VIPS
A Copa do Mundo é do povo. Desconheço o povo, como desconheço a multidão. Teremos a Copa no Brasil pelo povo. O São Paulo anda berrando, achando um absurdo gastar a bagatela de R$ 630 milhões para reformar seu estádio para abrigar o jogo de abertura da Copa. O São Paulo desdenha do povo. Os dirigentes de futebol e os políticos, ah!, estes são os verdadeiros psiquiatras do povo. Sabem tudo do povo.
Aqui mesmo,na gelada Johannesburgo,posso ver o que uma Copa faz pelo povo. Dia destes assisti, comovido, uma pequena caravana deslocando-se até o imponente Soccer City. Perplexo com a peregrinação dos engravatados perguntei o que era aquilo: "Políticos e dirigentes de futebol indo para o estádio", disse-me o guarda. Tomado pela indignação quis saber porque, para eles, não valia o direito do povo. Enquanto isto o povo esbaldava-se. Explico.
Havia no Soccer Citty um espaço reservado para o povo e outro para os políticos e dirigentes de futebol. Não vi tal divisão, mas tenho a convicção mais convicta de que tratava-se de uma divisão entre o povo e os políticos e dirigentes de futebol no país do aparthaid. Sou contra qualquer divisão. Esta surge escandalosa. Estava eu, feito intruso, numa ante-sala, o lugar menos gelado daquela imensa geladeira, e eis que cruzam dezenas de meninos e meninas, todos rigorosamente uniformizados, carregados de copos, garrafas, restos de comida...do que eu imaginei ser o manjar dos deuses. Não ousei sequer a olhar o rótulo das garrafas de vinho. Minha memória, sempre traiçoeira pela desmemória, poderia cometer o atentado de gravar o nome e me envergonhar na hora de comprar o meu vinho. Falo do preço. Era uma procissão de carregadores. Imaginei quem estaria por trás daquela comilança e bebelança. Logo descobri: o povo. Descobri não por acaso, descobri descobrindo. Eram comilança e bebelança anunciadas. Lá estava a placa: área VIP. A ignorância mata! Ouvi falar dos Bôeres, Khoisan, Zulus...Dos VIPS, nunca. De onde descenderiam os VIPS? Qualquer que seja a descendência, trata-se de um povo exigente. Só o cheiro da comida deve custar R$ 500,00. Por cabeça. Mais R$ 500,00 pelo bouquet dos vinhos. Os que eu bebo, tem aroma. Está bem, menti: cheiram. Dali, da ante-sala, eu ouvia vuvuzelas e gritedo. Deveriam ser os políticos e os dirigentes de futebol congelando na parte exterior do estádio. Desconheço o povo, como desconheço a multidão. Conheço os VIPS.
