Hiltor Mombach

COPA: SECRETÁRIO-GERAL DA FIFA BATE FEIO NO BRASIL

COPA: SECRETÁRIO-GERAL DA FIFA BATE FEIO NO BRASIL

Luiz Fara Monteiro, Correspondente do Correio do POvo, de Johanesburgo.

O Secretário-geral da Fifa, o francês Jerome Valcke, domina o Inglês, o alemão e o espanhol. Agora está tomando as primeiras aulas particulares de português para se comunicar melhor com os anfitriões da Copa de 2014. Mas independente da língua falada para discutir os detalhes sobre o Brasil, o tom será de cobranças, muitas cobranças.

“Vocês assinaram um compromisso com a Fifa. Por que não cumprem?”, quis saber dos jornalistas brasileiros presentes na cerimônia de doação de ingressos para os jogos da Copa, nesta segunda-feira. 27 mil operários que participaram das obras dos novos estádios sul-africanos foram beneficiados. Cada funcionário terá direito a um acompanhante em alguns jogos da competição. Os ingressos são de “categoria 4”, a mais barata, e estão sendo vendidos pelo equivalente a 35 Reais, ao público em geral.

O motivo da irritação de Valcke foi um e-mail enviado nesta segunda-feira pelos representantes da Fifa, no Brasil, sobre o projeto para 2014. “Recebi um relatório que mostra um monte de pontos vermelhos”, referindo-se a cronogramas não cumpridos pelas autoridades brasileiras.

Ex-diretor de Marketing da Fifa, e conduzido ao atual posto em 2007, Valcke, de 48 anos, é um homem conhecido pelo estilo educado. Sempre solícito com a imprensa, é capaz de passar uma hora em pé respondendo com paciência dezenas de perguntas repetidas, feitos por vários jornalistas. Mesmo quando está irritado com algum assunto, demonstra tranqüilidade. E costuma carregar nas ironias para mostrar que fala sério. “Esse ano tem eleições e ano que vem carnaval. Quando o Brasil vai começar a trabalhar? Vai esperar pra ver se ganha a Copa de 2010”?

De acordo com os relatórios, apenas metade das 12 cidades que vai sediar os jogos de 2014 iniciou as obras de infra-estrutura. Valcke não deu detalhes sobre quais cidades ou problemas o incomodavam. Mas informou a data em que as cobranças ganharão mais peso: 12 de julho de 2010, um dia depois do fim da Copa da África do Sul. “Há um ano eu disse que o Brasil não tinha tempo a perder, mas a advertência não foi levada a sério”, lamentou.

Perguntado se o mundial de 2014 corria o risco de mudar de sede, Valcke misturou diplomacia com ameaça. “Não vamos chegar a tanto, mas a luz vermelha está acesa no Brasil”, disse. O Secretário-geral da Fifa disse que se tranqüilizou com um telefonema do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que anunciou um plano de modernização dos aeroportos no país. Mas cobrou agilidade de todas as esferas de governo envolvidas na Copa, sejam municipais, estaduais ou federal. “É incrível como o Brasil está atrasado”. Ao ser lembrado que em Johanesburgo ainda há obras nas estradas e que parte do metrô só deverá ser inaugurada dois dias antes do início da competição, Valcke afirmou que são duas realidades diferentes entre Brasil e África do Sul.

Mesmo depois da entrevista, o Secretário da Fifa deu mais uma demonstração, ao seu estilo, de que estava irritado. Ao passar por um repórter brasileiro que falava ao celular, perguntou, rindo: “está passando minhas reclamações para o Brasil?”.

O segundo homem mais poderoso no comando da Fifa participou de um evento no estádio Soccer City, em Johanesburgo, onde 54 mil ingressos para os jogos da Copa foram distribuídos aos operários que trabalharam na construção dos 5 novos estádios-sede do evento (outros 5 foram reformados). 66 mil tickets serão doados à crianças carentes que participam dos projetos sociais da entidade. O total de 120 mil bilhetes foi comprado por patrocinadores oficiais da Fifa. A cerimônia reuniu cerca de 300 operários que receberam uma carta para retirar os ingressos nas lojas credenciadas, e contou ainda com o chefe do Comitê Local Organizador, o sul-africano Dany Jordaan.