Vai algum tempo escrevi o seguinte: “Toda tese, da mais obtusa à mais insana, viverá seu momento, mesmo que fugacíssimo, de confirmação e consagração. Estamos diante de uma verdade irretocável. O insensato que duvidasse da genialidade de Pelé, colocando-o no rol dos jogadores medianos, diria, pelo menos uma vez: ‘Viu, eu não disse?’. Sim, até o rei teve dias de nada."
Acrescentaria que toda sentença, da mais obtusa à mais insana, viverá seu momento, mesmo que fugacíssimo, de confirmação e consagração.
Vejam: há um descomunal esforço em enterrar o craque. Eis que ataco com um texto de Nelson Rodrigues: "Pode parecer uma verdade exagerada, violentada, mas eu diria o seguinte: no Brasil, a glória está mais no insulto do que no elogio. Se não me entendem, paciência. Mas ouçam uma boa e honrada conversa de brasileiros com brasileiros. Reparem como nós cochichamos o ditirambo e berramos o ultraje. Por coincidência, só ultrajamos os melhores."
O craque precisa ser eternamente craque. O perna de pau que viver um dia de craque será lembrado como craque. Já o craque que viver um dia de perna de pau terá declarada a carreira como encerrada.
Pelé jurou se aposentar após a Copa de 66. Não havia sido o craque que todos esperavam. Nunca na história uma quebra de juramento foi tão bem-vinda. Quatro anos depois, o eterno Rei nos faria o tricampeonato mundial.
O descomunal esforço em enterrar o craque vai sendo potencializado conforme a veteranice. Quantas vezes Messi já foi aposentado? Aos 39 anos, tornou-se, na segunda-feira, o jogador que mais marcou gols em Copas, 18.
Bastou uma atuação apagada diante da República Democrática do Congo para Cristiano Ronaldo ser decretado como acabado para o futebol. Seu companheiro de seleção, João Neves, insinuou que o craque era apenas mais um. "Se Cristiano Ronaldo não existisse, vocês provavelmente nunca teriam ouvido falar de um país chamado Portugal, então respeitem a lenda" atacou um torcedor.
Nelson Rodrigues escreveu: “Se me perguntassem qual a mais feia impostura da nossa época, eu daria a seguinte e fulminante resposta: é a cínica promoção que se faz do jovem. Não há mais, como no passado, o conflito das gerações. Até os velhinhos nostálgicos, espectrais, da porta da Colombo, adulam a juventude."
Ontem, Portugal atropelou Uzbequistão aplicando 5 a 0. Cristiano Ronaldo marcou dois e se tornou o primeiro jogador com gols em seis Copas. Aos 41 anos, passou a ser o segundo jogador mais velho a marcar num Mundial.
Em menos de uma semana, o craque português foi das manchetes sombrias ao deslumbre da imprensa internacional.
É sem razão e sem propósito este irracional e descomunal esforço em enterrar o craque. Não se apaga da memória um Pelé, um Messi, um Cristiano Ronaldo. Craques são eternos.
