Há jogadores que marcaram a história do futebol gaúcho. Um, acaba de virar livro: “Daizon, o zagueiro que virou lenda”.
Escrito por Lucas Scherer, conta a trajetória do zagueiro que marcou época no RS entre 1959 e 1977, período em que vingava a frase "do pescoço para baixo é canela". Considerado um símbolo do Esporte Clube Gaúcho, morreu em junho de 2012. Atuou no Gaúcho e teve passagens por vários clubes. Trecho de um dos capítulos.
POR LUCAS SCHERER
1974
Na década de 1970, um jogador profissional ainda estar em alto nível aos 35 anos não era comum. Privilegiado fisicamente, com fama consolidada e em um time protagonista no campeonato estadual, Daizon aproveitava aquela que poderia ser sua derradeira temporada. A cada jogo do Gaúcho, a imprensa destacava os gols de Bebeto e a dureza de ter que encarar a dupla dos Irmãos Metralha.
O técnico Ernesto Guedes, chegado no início do ano, logo arranjou um problema quando decidiu dar a braçadeira de capitão para João. Ele sabia da liderança nata de Daizon sobre os companheiros, mas tinha receio das consequências de suas provocações e do temperamento explosivo.
João Pontes representava o oposto: discreto, obediente, o tipo de jogador que transmitia segurança, ainda que com menos carisma (claro, isso tudo em comparação ao irmão mais velho). No fundo, Guedes sabia que nenhum dos dois era exatamente confiável, mas preferiu a calma enganosa de João ao incêndio certeiro de Daizon. O problema é que Daizon não era homem de engolir em seco. Passou dias de cara amarrada, repetindo para o treinador:
— Você vai mesmo indicar esse bobalhão? O juiz e os adversários são capazes de mandar nele. Por que não nomeia o bom aqui?
Guedes tentou segurar as pontas, mas o time emendou quatro jogos sem vitória, e ele acabou demitido. Nem teve tempo de ver se a braçadeira, mais cedo ou mais tarde, voltaria para o braço certo.
Na última rodada da fase classificatória, no dia 16 de junho, o Gaúcho precisava de um milagre. Em décimo lugar, estava a dois pontos de Novo Hamburgo e São Luiz. Tinha que vencer o Pratense (na época, a vitória ainda valia dois pontos), torcer pela derrota dos dois adversário diretos e ainda tirar uma desvantagem considerável no saldo de gols, primeiro critério de desempate.
O Estádio Wolmar Salton estava lotado. O Pratense, penúltimo colocado, entrou em campo parecendo incapaz de resistir. Leivinha abriu o placar aos 22 minutos, dando esperança. Enquanto isso, Novo Hamburgo e São Luiz perdiam em seus jogos. Aos 38 minutos, Bebeto ampliou. No segundo tempo, aos 5, Bebeto marcava novamente. A torcida explodiu quando as rádios anunciaram três gols do Encantado contra o Novo Hamburgo e a vitória da Associação Caxias sobre o São Luiz. Aliviado, o Gaúcho ainda marcou duas vezes, com Leivinha e Roberto, garantindo a classificação para o decagonal.
Para comemorar a vaga no decagonal decisivo, e a ajuda paralela, o Gaúcho convidou o Encantado para um amistoso valendo a Taça Gratidão. Apesar da cordialidade, os passo-fundenses ficaram com a taça ao vencer por 3 a 0, com Daizon fechando ao placar ainda no primeiro tempo.
A arrancada na fase final da competição foi terrível. Sete jogos sem vencer, até a sequência ser quebrada sobre o Inter de Santa Maria no Wolmar Salton, vitória por 1 a 0. O jogo seguinte, contra o Internacional de Porto Alegre, também em Passo Fundo, seria um dos mais épicos da história alviverde. A escalação do time comandado por Rubens Minelli era poesia aos ouvidos dos torcedores: Manga; Cláudio Duarte, Figueroa, Bibiano Pontes e Vacaria; Falcão, Escurinho e Paulo César Carpegiani; Valdomiro, Claudiomiro e Lula. E foi para ver esse time que começava a encantar o Brasil e seria bicampeão brasileiro em 1975 e 1976, que quase 11 mil pessoas de toda a região e até de Santa Catarina e do Paraná superlotaram o estádio e bateram o recorde histórico de renda no futebol passo-fundense.
O confronto foi considerado tão especial que virou uma reportagem especial na revista Placar: “O jogo de sete dias”. A foto de abertura mostrava Daizon com o atacante Claudiomiro caído a seus pés e a legenda: “Daizon prometeu parar Claudiomiro. Fez muito mais: deu um nó cego no centroavante”. O texto começava falando sobre os jogadores prometendo ganhar de “qualquer maneira” a torcedores nos bares da cidade, passando sobre o trabalho dos dirigentes que já na segunda-feira anterior ao jogo começaram a aumentar a capacidade do estádio com a instalação de arquibancadas temporárias. O gramado recebia uma atenção especial, mas nem sempre por um bom motivo. Alguns buracos eram deixados “por acaso” nas laterais, para complicar a vida do ponteiro Lula, principal criador das chances de gol coloradas.
A reportagem também registrou que a dupla da capital oferecia incentivos financeiros em jogos contra o rival: do Grêmio, 60 mil cruzeiros por vitória e 30 mil por empate; do Inter, 50 mil e 25 mil, respectivamente.
— Pode não parecer muito quando dividido por todos, mas o dinheiro quebra o galho do “rancho” no supermercado, que por um mês pode ser bem farto — dizia Daizon.
Aliás, ele sempre lembrava que boa parte da motivação dos times se devia a uma característica da época: os prêmios eram muito maiores do que os salários. Nem sempre se recebia o bicho em dinheiro, mas em produtos que garantiam conforto e tranquilidade das famílias:
— Tinha torcedor abonado que prometia dez quilos de carne. Já imaginou quantos dias duravam uma quantidade assim de carne? — emendava.
A melhor história da reportagem era a de um pastor alemão que perambulava pelo Wolmar Salton e que tinha o nome de Agomar. Seria uma “homenagem” de Daizon para o árbitro Agomar Martins, responsável direto por várias derrotas questionáveis do Gaúcho para a dupla Grenal.
— Domingo ele vai comigo ao campo. Se o árbitro José Luiz Barreto roubar, atiço o Agomar nele — ameaçava Daizon, sempre cercado por torcedores que se divertiam a cada declaração do ídolo.
Nisso, se aproximou um senhor que perguntou onde poderia comprar um bilhete para ver Daizon “dar um banho de bola” em Claudiomiro, que seria marcado diretamente pelo zagueiro.
Enquanto Daizon indicava o caminho para o torcedor, destacava mais uma vez sua condição de macho, “mas sempre em tom de gozação”, como afirmava o repórter.
— Um dia desses o Tarciso (jogador do Grêmio) me chamou de bonzinho. Nem queiram saber como mexeram comigo. As garotas não me olhavam mais e os amigos me chamavam de... bom, deixa pra lá — divertia-se Daizon, no seu mais puro estilo de gozação e promoção de sua fama.
Quando alguém provocou Daizon lembrando que Figueroa dissera em uma entrevista que protegia a área como “se ela fosse a sua casa”, respondeu no ato:
— Olha, o Figueroa precisa saber que touro em pasto alheio é vaca.
João não jogaria, suspenso por cartões amarelos, e lamentava:
— Minha maior mágoa é ficar fora desse pega. Queria acabar com a banca do timeco. Não importa se o Bibiano está do outro lado, guerra é guerra!
E a rivalidade tinha raízes: Claudiomiro havia atingido o mais novo dos Pontes em um treino do colorado três dias antes.
— O Claudiomiro tem fama de comer a bola, mas sempre acaba engolindo minha botina — completou Daizon.
Quando Gaúcho e Inter entraram em campo, o time passo-fundense começou pressionando. Mas o auxiliar Mário Severo marcou dois impedimentos inexistentes contra Leivinha e Bebeto. O colorado passou a dominar com Falcão, apoiado por Carpegiani e Escurinho. Gringo anulou Lula; Bebeto era marcado por Figueroa e Bibiano. Ainda assim, cabeceou perto da trave e arrancou até ser parado por impedimento mal marcado. O goleiro Carlos Alberto fez quatro defesas espetaculares.
Daizon foi eleito o melhor em campo. Dominou o centro da defesa, antecipou cada investida de Claudiomiro, e a cada bola ganha contra Figueroa, a torcida explodia. Suas mãos iam ao quadril, respirando fundo, sentindo o peso do jogo e o calor dos quase 11 mil espectadores. Gritou com o árbitro, comandou os companheiros e orientou os gandulas na cera para devolver a bola ao campo.
Assim mesmo, deu Internacional. O gol saiu aos 16 minutos do segundo tempo. Claudiomiro sofreu falta de Lívio perto da área, pela meia-esquerda. Valdomiro chutou forte e a bola entrou no ângulo esquerdo do gol de Carlos Alberto. Indefensável.
O jogo pelo segundo turno, no Beira-Rio, seria bem diferente. Em uma tarde em que todo o time jogou mal, o Gaúcho acabou goleado por 4 a 0. O fato curioso aconteceu já no final da partida. O Inter tinha um pênalti a seu favor. Lula se preparava para bater quando a torcida começou a pedir por Manga. O goleiro foi autorizado pelo técnico Rubens Minelli. Do outro lado estava Carlos Alberto, que tentou impedir a cobrança. O árbitro disse que não havia nada na regra que não permitisse um goleiro de cobrar pênalti. Carlos Alberto, chorando, pediu então a Manga que não humilhasse um colega de profissão. A resposta veio no estilo Manga: “seja homem, rapaz!”. Depois de muita confusão, o pênalti foi cobrado, e mal. Manga chutou fraco, no meio do gol. Mas Carlos Alberto, ainda chorando, nem tentou defender, estava caminhando sobre a linha. Ao perceber a cobrança fraca, levou o pé para trás e quase defendeu de calcanhar. Mas já era tarde. O que ninguém poderia imaginar é que este foi o último jogo em que os três irmãos Pontes atuaram juntos.
O campeonato chegava à penúltima rodada. O Gaúcho já não brigava por nada além de dignidade, mas Daizon mantinha uma promessa jocosa: não encerrar a carreira “sem antes bater em um juiz”. Era a forma de sustentar sua fama de “zagueiro mais macho do Rio Grande do Sul”, ainda que, no fundo, fosse mais bravata do que intenção.
O problema é que, muitas vezes, pagamos pelo que dizemos. A torcida exigindo “macheza”, a imprensa em busca de escândalo e a arbitragem sempre suspeita diante da dupla Grenal armaram a tempestade perfeita. No dia 10 de novembro de 1974, no Estádio Presidente Vargas, em Santa Maria, o inevitável aconteceu.
Parecia que o Gaúcho se reabilitaria no campeonato estadual depois do empate com o Santa Cruz e das derrotas para o Ypiranga e Caxias. O time fazia uma excelente partida contra o Inter local e terminava o primeiro tempo vencendo por 1 a 0, gol de Paraná. Estreando o técnico Santarém, o alviverde se defendia bem e explorava os contra-ataques, com os lançamentos de Roberto, as chegadas de Leivinha e as arrancadas de Bebeto.
Então veio o segundo tempo, e a atuação decisiva do árbitro José Luiz Barreto.
Aos 6 minutos, numa bola levantada, Lívio tocou com a mão fora da área. Barreto assinalou pênalti. As reclamações foram em vão, mas Tadeu desperdiçou a cobrança. A cada decisão absurda do árbitro, a fúria de Daizon crescia. Aos 14, Edson foi lançado no mano a mano com Daizon Pontes. O atacante se jogou dentro da área e o árbitro assinalou outro pênalti.
Num instante de explosão, Daizon se soltou dos colegas, avançou e desferiu dois socos precisos seguidos de um chute que derrubou Barreto. O juiz caiu no gramado, atordoado, enquanto a torcida em volta prendia a respiração, sem acreditar no que acabara de presenciar.
A transmissão da Rádio Imembuí de Santa Maria registrou assim:
— Cobra Donga, entregando para Paulinho. Paulinho para, espera a colocação dos demais companheiros, entrega para Silvio. Silvio para Valdo. Valdo para Silvio pelo lado esquerdo. Tem campo de progressão, boa bola, lançada para a direita, pode sair o gol... Edson foi agarrado... O juiz marca pênalti!
— Pênalti! Está certo e não tem o que reclamar. Não há o que reclamar. Olha ali, cartão vermelho, olha o cartão vermelho. Não há o que reclamar. Cartão vermelho para Daizon Pontes! Deu um soco no juiz! E deu um pontapé também! Um soco e um pontapé! Nunca mais vai jogar futebol. Daizon Pontes, jaqueta meia dúzia da equipe do Gaúcho e vai para cana. Vai para cana! Os policiais vão levá-lo. Vamos ver o que ele tem a dizer...
— Tem que ser preso! Tem que ser levado para a cadeia! É um verdadeiro animal!
— Vamos ouvir o Pontes... E daí, Pontes? O que houve? Você perdeu a cabeça?
— Pô, nem dá o que falar. É uma tropa de sem-vergonha. Esse cara... (incompreensível) na cabeça!
— Aí está. Daizon Pontes foi expulso do gramado. Ele que...
— Mas não é só ser expulso... Tem que ser levado para a cadeia! Isso é agressão! Tem que ser preso! Lugar de um elemento desse é na cadeia!
— É uma barbaridade! Não há nem termos para definir a agressão esdrúxula do jogador Daizon Pontes. Um veterano jogador, homem que tem uma história até tradicional no futebol do Rio Grande do Sul. Prejudica o espetáculo e toda a sua vida esportiva, porque esta é uma das agressões das piores que nós já vimos em termos de futebol.
Daizon virou as costas e saiu direto para o vestiário. Ainda tonto, Barreto autorizou a cobrança: Silvio converteu, enquanto policiais, dirigentes e repórteres ainda ocupavam o campo. Uma chuva de pedras caiu sobre os jogadores do Gaúcho.
Cinco minutos depois, nova falta para o Inter. Contrariado, Leivinha chutou a bola para o lado e também foi expulso. A caminho do vestiário, ouviu soldados da Brigada Militar dizerem que prenderiam Daizon em flagrante. Correu e avisou:
— Grandão, vamos embora que os brigadianos vão te prender!
Daizon arrombou a porta dos fundos e os dois saíram correndo o mais rápido que puderam. Pularam o muro do Estádio Presidente Vargas e atravessaram o cemitério de Santa Maria até encontrarem um torcedor do Gaúcho que estava entrando em seu carro. De carona, escaparam por 60 quilômetros até Júlio de Castilhos, onde aguardaram o time em um posto de gasolina.
Mesmo com dois jogadores a menos, o Gaúcho resistiu até os 40 minutos, quando Silvio marcou mais duas vezes, fechando 3 a 1 para o Inter.
Daizon foi recebido em Passo Fundo como um “herói justiceiro”, se é possível dizer isso. Uma carreata acompanhou a delegação do Gaúcho na chegada a cidade, com direito a buzinaço e churrasco até às cinco horas da madrugada. No dia seguinte, entre manchetes e crônicas (algumas sensacionalistas), muito se falava sobre ameaças dos jogadores alviverdes a outros árbitros. Falava-se em João Pontes, Bebeto, Carlos Alberto e Nadir, os mais veteranos da equipe.
A notícia ganhou destaque nos principais jornais e na revista Placar, nem sempre com total precisão. Alguns publicaram que Daizon teria batido em Barreto por ele ter expulsado João, que reclamara do pênalti contra o Gaúcho. Outras diziam que este teria sido o primeiro caso de agressão a um árbitro de futebol no Brasil.
Este fato também é falso. Mesmo no Rio Grande do Sul, não há um registro preciso sobre quem teria a “honra” de ser o pioneiro a bater em um árbitro. Inclusive, no fim de semana anterior a Gaúcho e Inter de Santa Maria, o volante Jadir (heptacampeão estadual pelo Grêmio), do Juventude de Guaporé, foi suspenso por um ano e dois jogos por agredir o árbitro Luis Carlos Tiburski no jogo contra o Novo Hamburgo pela Copa Governador do Estado.
O cronista Jarbas Sampaio Correa, do jornal passo-fundense O Nacional, foi mais lúcido:
“Não vamos entrar no mérito da questão que envolveu Daizon Pontes e José Luiz Barreto. O árbitro errou duas vezes em dez minutos contra o time de Passo Fundo, que por isso perdeu uma partida em que tinha plenas possibilidades para vencer. Ganhava, aliás, por 1 a 0. A reação violenta do profissional periquito não pode ser devidamente analisada por quem não sofreu como ele na própria carne as consequências das falhas desastrosas de Barreto.
O que não deixa dúvida é que sua expulsão e as características que envolveram o incidente colocaram por terra as esperanças que o Gaúcho ainda tinha quanto a um bom resultado e precipitaram sobre Daizon Pontes problemas que poderão antecipar um fim de carreira futebolística.
A expulsão de Leivinha ocorreu muito mais pelo estado psicológico do juiz naquela altura dos acontecimentos do que pela gravidade da falta disciplinar cometida pelo jogador, que no máximo poderia merecer um cartão amarelo. Chutou a bola para o lado, sem atingir nenhum adversário e muito menos o árbitro ou seus auxiliares.
As ameaças a todo o quadro de árbitros da Federação pelos profissionais do clube da Montanha, mesmo levando-se em conta os tremendos prejuízos que as atuações de alguns juízes já causaram ao Gaúcho, são, apesar disso, lamentáveis e revelam um descontrole perigoso dentro do clube, que parece no momento uma nau perdida na tempestade, sem timoneiro e sujeita a soçobrar a qualquer instante.
Conhecemos perfeitamente a envergadura moral e a capacidade dos atuais dirigentes alviverdes e por isso confiamos que medidas enérgicas sejam tomadas para que o Gaúcho não venha a deixar neste final de campeonato uma imagem incompatível com os foros de cultura e desenvolvimento desta Cidade Universitária.
Santarém, um técnico recém-chegado à Montanha, valendo-se da amizade e admiração que os jogadores lhe devotam, tem também todas as condições para fazer com que seus pupilos voltem à razão, se preparem convenientemente para a partida contra o Grêmio e tenham a tranquilidade que o momento exige para colherem, quem sabe, um resultado positivo, sem as manchas negras e comprometedoras da indisciplina.”
Este era outro grande problema. Na rodada seguinte, o Gaúcho receberia o Grêmio no Estádio Wolmar Salton. Com Daizon, o “Irmão Metralha Número 1”, automaticamente suspenso e aguardando julgamento do Tribunal de Justiça Desportiva, as atenções caíam todas sobre João, o “Metralha Número 2” e Luiz Louruz, o árbitro que apitaria o jogo. Louruz era respeitado em Passo Fundo, mas segundo uma reportagem d’O Estado de São Paulo, “pelo seu trabalho na partida contra o Esportivo, os dirigentes do Internacional chamaram-no de ‘negro sem-vergonha, ladrão, safado’ (sic).”
A situação estava tão fora de controle que, ainda segundo o jornal paulista, 42 árbitros gaúchos assinaram um manifesto contra o Tribunal de Justiça Desportiva do estado acusando-o de ser “complacente demais” com os jogadores expulsos. O TJD teria revidado afirmando que “os árbitros se excedem quando chamam a atenção dos jogadores, o que origina um espírito de revolta dentro do campo”. Por sua vez, a resposta da Federação foi orientar os soldados da Brigada Militar que faziam a segurança nos estádios a prender o jogador agressor.
O certo é que Gaúcho e Grêmio fizeram um jogo disputado e viril, mas dentro dos limites da esportividade, com os porto-alegrenses vencendo por 2 a 1 e Louruz apenas mostrando cartões amarelos para João Pontes e Lívio, a dupla de zaga alviverde, e Luiz Carlos, centromédio do tricolor.
Daizon iria a julgamento em 26 de novembro. Dois dias antes, ao retornar da suspensão automática pela expulsão em Santa Maria, vestiria pela última vez a camisa número 6 do Gaúcho, encerrando também a trajetória dos Irmãos Metralha em campo.
Bebeto e Leivinha garantiram a tranquila vitória por 2 a 0 sobre o Esportivo no Wolmar Salton. Ao final do jogo, Daizon deu uma volta olímpica pelo gramado, sendo aplaudido entusiasticamente pela torcida. Ele guardou a bola e entregou a camisa número 6, um verdadeiro troféu, para a filha Denise. Era a primeira vez que ela via o pai jogar.
Minutos depois, às escuras, o gramado do Wolmar Salton, agora vazio, lembrava-lhe que a vida de um jogador não se mede apenas por gols ou vitórias, mas pela coragem de encarar os obstáculos de frente.
Finalmente, pouco antes da meia-noite do dia 27, o Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Gaúcha de Futebol anunciava o veredito: Daizon Pontes estava suspenso por 18 meses pela agressão a José Luiz Barreto. Além dele, pela confusão em Santa Maria, Paraná e João Pontes receberam uma pena de três jogos de suspensão e Leivinha e Evonir duas partidas. O massagista Daltro Pinto foi condenado a 120 dias de afastamento dos gramados. O departamento jurídico do Gaúcho não participou do julgamento, o que certamente influenciou a severidade das penas.
Em entrevista anos depois, Daizon comentou sobre o depoimento na polícia, em que negava a agressão, afirmando que “Barreto já tinha ameaçado expulsar diversos jogadores do Gaúcho”, que ele “deu dois pênaltis inexistentes” e que, ao expulsá-lo, “proferiu palavras de baixo calão”. Disse ainda que ao receber cartão vermelho saiu voluntariamente de campo, sem escolta policial. A agressão, segundo Daizon, “foi fruto de imaginação e sensacionalismo”. Barreto entrou com uma queixa-crime na delegacia de Santa Maria.
O futuro era incerto: 540 dias longe dos campos e a dúvida se deveria pendurar as chuteiras ou lutar para voltar com quase 37 anos de idade. Ainda assim, Daizon carregava a certeza de que sua história não se encerraria em uma expulsão ou em um veredito severo.
O desafio estava lançado, e ele estava pronto para enfrentá-lo, um passo de cada vez.
