Hiltor Mombach

DAS AMEAÇAS

DAS AMEAÇAS

Vou para minha quinta Copa. Cobri cinco Olimpíadas,o mesmo número de Pan-Americanos. Cobria a Copa América
quando a competição valia alguma coisa. O pior terrorismo é o terrorismo do noticiário.
Desembarquei na Grécia em 2004 anos sabendo que a Grécia havia investido mais de 1,8 bilhão de dólares para proteger os Jogos de Atenas, o primeiro a ser realizado depois dos ataques feitos em 2001 pela Al-Qaeda contra os EUA. Viajei para Pequim em 2008 com ameaças de grupos terroristas. Explica-se: mais de 10 mil jornalistas do planeta inteiro estariam na China. É a forma de chamar atenção, de ter mídia gratuita. As manifestações pró-Tibete atrapalharam o périplo internacional da tocha olímpica e fizeram aumentar a preocupação com a possibilidade de pessoas usarem a competição para marcar uma posição contra o país.
Nunca levei muito a sério tais ameaças, mas, e há sempre um mas em tudo....
Nos Jogos de Atlanta o terror ameaçou e atacou. Uma bomba explodiu no dia 27 de julho de 1996 no Centennial Park, o parque temático da Coca-Cola, ferindo cerca de 150 pessoas e matando duas. Eu havia previsto o ato terrorista aqui mesmo, no Correio do Povo, três dias antes. Todos os dias eu passava pelo Centennial Park para chegar até o Centro de Imprensa. Ali se aglomeravam milhares de pessoas sem serem revistadas. Na noite da explosão eu estava hospitalizado.
Mas este não foi o único fato a manchar os Jogos. Dois dias antes de começar a Olimpíada, explodiu um avião Boeing 747-100 da TWA, perto de Nova Iorque, matando 230 pessoas. Foi admitida a possibilidade de ter ocorrido um atentado terrorista.

HOSPITALIZADO


Quinta-feira, 26 de julho de 1996. Estou no metrô de Atlanta me dirigindo ao Centro de Imprensa para mais um dia de cobertura dos Jogos Olímpicos. Assim, sem mais nem menos, tenho a impressão de ter rompido tíbia e perônio, tamanha a dor na perna. Sinto calafrios. Mesmo assim, trabalho. À noite, não podendo resistir à dor, sou levado por Marsha Peterson, nossa querida guia norte-americana, ao hospital Georgia Baptist. O doutor Melton exige minha internação. Justifico ter que seguir minha cobertura. No dia seguinte, retornaria. Para ficar.
Retornaria, levado pelo filho do doutor Eduardo de Rose, porque me garantem ser o Georgia Baptist o hospital da família olímpica, ou seja, dos que possuem a credencial oficial. A enfermeira-chefe Zoila Calas confirma. Fico no térreo, numa cama destas com rodinhas. Aplicam-me uma agulha em cada braço. Em menos de 5min, alguém retira as agulhas e sai em disparada pelo corredor gritando ’uma bomba, uma bomba’. Entra com minha cama no elevador e eu, desesperado, mando que ele saia do hospital. Se tem uma bomba ali, o melhor lugar é lá fora. Ele me explica que havia explodido uma bomba no Centennial Park e que 57 das mais de cem vítimas estavam sendo conduzidas para o Georgia Baptist.
Sou instalado no quinto andar, num quarto todo envidraçado. Ali vejo a movimentação dos helicópteros e sou informado pelos enfermeiros do estado das vítimas. Entro no ar na Rádio Guaíba, onde falo das 2h até as 7h. Ficaria hospitalizado cinco dias.