Hiltor Mombach

Depois reclamam

Clubes vetam mudanças no futebol brasileiro

Estava bom demais para ser verdade. Na noite de quinta-feira, a notícia surgiu e não conheço ninguém que trabalhe com jornalismo esportivo que não tenha ficado com o pé atrás. Afinal de contas, não é todo dia que uma série de boas medidas são sugeridas por ninguém mais, ninguém menos do que a CBF. Na prática, grande parte das propostas estavam picando há horas, mas isso é o de menos, não dá para reclamar porque não faz, mas aí quando faz, reclamar que demorou. E justiça seja feita, as propostas são todas boas. Vamos lá, acompanha aí: uso do árbitro de vídeo (VAR) em todos os jogos do Campeonato Brasileiro, limitação de uma troca de treinador durante a competição, limitação de 40 jogadores inscritos por clube no Brasileirão e a (re)criação de uma nova competição, em jogo único no começo da temporada, colocando de um lado o campeão do Brasileirão e do outro o campeão da Copa do Brasil.
É claro que aqui e ali alguns ajustes precisam ser feitos, mas o grosso das propostas era bem bom. Só que aí vieram os clubes. Os clubes que tanto choram e que tanto reclamam da falta de organização do futebol brasileiro. Os clubes que tanto acusam aqui e ali, mas que nunca têm culpa de nada. Os clubes vieram e praticamente mutilaram a proposta da CBF. A primeira proposta, do VAR, foi aceita. Até mesmo porque o grosso dos custos será da CBF e não deles, então não tem mesmo muito problema em aceitar. Então sim, finalmente teremos o auxílio do árbitro de vídeo em todas as partidas do Campeonato Brasileiro. Mas arrisco aqui dar um spoiler: as reclamações quanto à arbitragem continuarão.
A mudança mais significativa e simbólica das propostas pela CBF era a limitação de uma troca de treinador em meio à competição. É claro que os clubes vetaram. Como não iriam vetar uma possibilidade que de fato poderia ter reflexos positivos no futebol brasileiro e que exigiria um melhor planejamento? Eu até concordo que esse tipo de medida deveria ser sugerida e não imposta, mas apostaria 10 de 10 fichas que o veto dos clubes passa longe deste tipo de argumento.
Por fim, os ajustes propostos pelas equipes em relação ao número de inscritos beira o risível. A ideia da CBF era limitar em 40 jogadores. A contraproposta, por assim dizer, não só aumenta para 45, como não contabiliza jogador das categorias de base. Ou seja, vale todo mundo. Ou algum clube no Brasil tem um elenco formado por 40 jogadores (já é difícil) sem que nenhum destes seja das categorias de base? É claro que não, nem o Palmeiras e seu elenco inchado. 
Só o que faltava também era os clubes se unirem e mandarem contra um jogo com poder de atrair torcedores no início da temporada, revivendo a Supercopa.
É lamentável que uma entidade como a CBF demore tanto tempo para propor medidas que parecem tão positivas para o nosso futebol. Mas é ainda mais lamentável que quando a entidade faz a sua parte, os clubes, que deveriam ser os maiores interessados, sejam os responsáveis por brecar toda e qualquer melhora.