Se há uma acusação que mereço é esta: sou prático, nada sonhador. Já confessei aqui mesmo ser um obsessivo. E ter um apego excessivo a sentimentos do passado. Sou um saudosista assumido. Já citei mais de uma vez uma frase de uma crônica de Nelson Rodrigues: "O patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente.
Bairrista confesso, padeço quando os times do Rio Grande do Sul vão a reboque. Tenho apego excessivo aos tempos de ouro. O Grêmio conheceu glórias recentemente. O Inter vive do um passado que surge longínquo.
Gosto de ler Cesar Grafietti. Já entrevistei o economista algumas vezes. Quando o torcedor de clubes menos endinheirados diz “ah, meu time não pode só competir, tem que ganhar” Grafietti, que é prático, responde:
"Desculpe, caro torcedor que vive de ilusão. Seu clube já não ganha nada há anos, e com a distância que se cria em termos de receitas vai depender de uma reformulação tão grande do departamento de futebol para se tornar competitivo, que é melhor sonhar com vagas na Libertadores ou pensar no título da Copa do Brasil, porque no Brasileirão a chance será cada vez menor."
Soma de dinheiro
Também escreve o seguinte: "Alguns podem até fingir surpresa, mas é só fingimento mesmo, porque os vencedores estavam escritos desde o início da temporada. Cada vez mais a soma de dinheiro com gestão faz a diferença. Sozinhos podem ajudar aqui ou ali, mas juntos são imbatíveis.
Flamengo e Palmeiras dividiram os principais títulos da temporada. Clubes que iniciam o ano mirando receitas acima de R$ 700 milhões, como o Palmeiras, ou R$ 1 bilhão, como o Flamengo, são naturalmente os candidatos a tudo, à medida em que os adversários mais próximos dificilmente atingem algo perto disso.”
Cesar Grafietti.: “O que faz com que o desempenho do Internacional e do Fluminense em 2022 seja digno de aplausos e celebração. Ótimas campanhas se compararmos com o tamanho das receitas. Ao mesmo tempo que novamente o São Paulo merece ter um sinal de alerta alterado de amarelo para laranja, porque é a segunda temporada seguida em que o time se coloca em uma posição de pouca competitividade, a despeito da semifinal da Copa do Brasil e da final da Sul-Americana.”
Inter, campanhas
Fiz vários elogios ao Inter pela campanha no Brasileiro. O segundo lugar é digno de celebração. Mas, e há sempre um mas em tudo, quero lembrar ao amigo leitor que o time ficou oito pontos atrás do campeão Palmeiras. Não houve chance real de taça.
Tomando como parâmetro, é ainda mais digno de celebração o segundo lugar de 2020 quando teve chance real de conquista do Brasileiro até a última rodada. Isto sim, amigos, é um feito, uma façanha. O Inter bateu no poste e a taça ficou com quem? Com o rico Flamengo.
Há tantos exemplos que não caberiam nesta coluna. Recentemente o Inter e o Cruzeiro andaram sondando o volante Lucas Romero, do Independiente. O jogador assinou com o León, do México, numa transação que envolveu cerca de R$ 4 milhões.
Presumo que o Inter tentou reduzir os valores e perdeu a concorrência. Cinco dias depois do León bancar Lucas Romero o Flamengo anunciou oficialmente o retorno do volante Gérson, que estava na França. Especula-se que tenha pagado R$ 85 milhões.
Alerta e mais do mesmo
No arremata, Grafietti faz um alerta, o mesmo que este colunista vem fazendo vai tempo:
“Com a queda de clubes de menores receitas (Juventude, Avaí, Ceará e Atlético Goianiense) teremos em 2023 um Brasileirão fortíssimo, onde a gestão esportiva fará mais diferença que o dinheiro. Ou melhor: a gestão esportiva será justamente o diferencial para quem quiser se manter na Série A. Não será nem uma questão de olhar o topo, mas de tomar cuidado com o final da tabela. Qualquer erro será fatal, especialmente para clubes que vêm errando há algum tempo.”
Ano para ver mais do mesmo. Em breve veremos o Inter se debater entre priorizar esta ou aquela competição. Não tem bala na agulha para disputar vários torneios. Mas tem time para ser protagonista na Copa do Brasil e na Libertadores, em eventos de mata-mata. Isto se contratar um volante e um centroavante, jogadores de qualidade técnica indiscutível.
"Desculpe, caro torcedor que vive de ilusão"
"Cada vez mais a soma de dinheiro com gestão faz a diferença. Sozinhos podem ajudar aqui ou ali, mas juntos são imbatíveis".
