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Pensei em escrever sobre minha infância, mais precisamente sobre o jogo de bolita. Ficou evidente que eu não poderia escrever sem descrever o jogo em si em todas as suas minúcias. Por um singelo motivo: há décadas não vejo crianças jogando bolita. Esta diversão faz parte do passado, é jurássica. O trágico da nossa época é que a cada dia ela vai sepultado o melhor do passado. O jogo de bolita foi trocado por jogos virtuais, pelo confinamento de uma geração. Desisti de escrever sobre o jogo de bolita. Sobre isto vou abrir um breve parêntese para um registro sobre o jogo de bolita. Os antigos entenderão. Eu era péssimo na hora de nicar. E tinha um piá, o Darvil, que nicava sem errar nunca, mesmo em distâncias de dois, três passos. Darvil era o cara! Era permitido trocar a joga ou o bolão por uma bolita menor na hora de nicar. Eu trocava, mas não adiantava. Até que um dia vazou tinta de uma caneta Bic. Na ponta tem uma bolinha que parece ser um aço minúsculo. Pois retirei o tal aço, embrulhei num guardanapo e assim, munido desta arma quase invisível, fui para a cancha de terra batida. Na hora do Darvil nicar, troquei a joga por aquilo que quase não se via. Quebrou o pau. No final do diz-que-diz-que, Darvil mandou ver. Errou. Lavei a alma. Fecho o parêntese e abro com o assunto dominical: minha ignorância diante das técnicas modernas de negociação no futebol que tornam possível vender bem até mesmo mediocridades. Este mundo indecifrável onde jorra dinheiro está repleto de gênios. São os Stephen Hawking domercado da bola. Aqui, o céu é o limite quando o assunto é grana. Estou falando sobre esta debandada de jogadores do Inter em busca de euros. A oferta de quase R$ 60 milhões por Aránguiz, um volante, é a prova escarrada que dinheiro dá em árvore. Aránguiz passa longe de ser um volante medíocre, é ótimo jogador, mas é volante. Ofereceram R$ 60 milhões por um volante que há horas vem jogando pouco ou quase nada no Inter. Não ignoro as explicações e estou prevendo que os sábios jogarão na minha a cara a minha ignorância com a afirmação de que o futebol tem suas próprias leis de mercado. Pois tais leis estão quebrando os clubes nos quatro cantos do mundo. Toda vez que um clube quebra, poucos enriquecem muito. É preciso ser muito inteligente para entender o mundo do futebol. Ou isto ou o mundo do futebol não respeita os inteligentes. Vejam outro caso: Geferson. Sim, este lateral ainda limitado e desconhecido. Com o rapidez de um raio foi alçado a jogador da Seleção. Entendam: da Seleção, pois jogador de Seleção ele não é. E com a rapidez de outro raio há um oferta de R$ 24 milhões, outra prova provada que em algum lugar do mundo dinheiro dá em árvore. Duas coisas me surpreendem: a dinheirama que passa pelo futebol sem jamais enriquecer os clubes, que só fazem empobrecer, e a extraordinária riqueza do Brasil. O Japão é de uma pobreza franciscana se comparado ao Brasil. O escândalo do Lava Jato teria quebrado os Estados Unidos, colocaria o Japão de joelhos. Mas não quebrou o Brasil. Ainda.