Troquei o madrugadão do Netflix pela TV da Assembleia Legislativa. Troquei o filme Desnorteados por um desfile de discursos dos tempos da comédia pastelão. Muita conversa fiada e pouco conteúdo.
Teve um deputado que começou sua fala mais ou menos assim: “Quero dizer que vou votar a favor”. Votou convicto na fidelidade partidária. Fidelidade dá milhagem, conta pontos.
Morri de rir quando um político afirmou que o pacote do governo tinha 74% de aprovação do povo gaúcho. Ouviu como retruque que a pesquisa devia ter acontecido dentro do gabinete do vice-governador. Políticos divertem e se divertem. Às custas da tragédia alheia.
Constrange ver alguém eleito pelo povo ir para a tribuna com o voto votado, a reboque do partido.
Lembro aqui de um fato futebolístico ocorrido vai muito, muito tempo. Falo do famoso julgamento do doping de dois atletas do Inter que se recusaram a colher o material no estádio Olímpico após um Gre-Nal.
Fiquei no jornal até às 8h, aguardando o desfecho de uma sessão que se estendeu por cerca de 10h. Rodamos uma edição extra com o resultado. O Inter foi absolvido. Fala testemunha, fala médico, fala auditor... A madrugada prometia. Antes, preciso dizer que sou ingênuo para algumas coisas. Talvez o termo certo seja ignorante. Sou ignorante em muitas coisas e carrego uma ingenuidade juvenil muitas vezes.
Acreditando nos homens, na justiça, eu jurava que os votos só aconteciam depois do auditor ouvir todas as partes. Parece óbvio. Eis que um auditor sacou o voto do bolso. Era voto votado. Me caiu os butiá do bolso (por favor, revisão, não mudem para me caíram os buitás do bolso). Então eu estava diante de uma pantomima?
Tão ou mais grave do que voto votado a reboque é o arquivamento de um processo. Em 2007, o relatório elaborado pela Comissão de Ética do Grêmio sobre o caso ISL foi arquivado. Em uma reunião que se arrastou por quatro horas, a maioria dos mais de 200 conselheiros presentes – foram 115 votos pelo arquivamento contra 89 pela votação imediata – optou por não ouvir o conteúdo do documento que tratava da gestão do ex-presidente José Alberto Guerreiro na questão. Na hipótese de o processo que corria na Justiça analisando o caso decidisse pela condenação do dirigente, ele seria excluído do quadro social do clube. Seria. Isto não aconteceu.
A proposta de arquivamento foi apresentada pelo ex-presidente Fábio Koff – e apoiada pelo atual, Paulo Odone – e surgiu como alternativa em uma reunião na qual se avizinhava uma disputa entre dois grupos, a favor e contrários a Guerreiro.
Política partidária e política futebolística são parecidas. Há interesses e interésses!
Vejam. O pedido de reconsideração do Internacional no ‘caso Victor Ramos’ não avançou. Recentemente, a procuradoria do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) decidiu manter o arquivamento da denúncia contra o Vitória, por conta de suposta irregularidade no registro do zagueiro. Gostaria de ouvir a argumentação do STJD no caso. Neste caso malcheiroso o caminho foi arquivar. Melhor arquivar do que ter que peitar a CBF e seu Diretor de Registro e Transferências. Êta Brasil!
Nesta semana o Correio do Povo saiu com a seguinte matéria: “Mesmo virtualmente esgotado na esfera esportiva, após o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) se negar a investigar e decidir pelo arquivamento, o caso Victor Ramos ainda tem desdobramentos.
O departamento jurídico do Inter entrou com requerimento pedindo que o STJD se manifeste a respeito da ata notarial que, para o clube, atesta a veracidade dos e-mails apresentados como prova. A Confederação Brasileira de Futebol afirmou que as comunicações eram forjadas, gerando uma avalanche de críticas ao Inter.”
Na terça-feira, publiquei com exclusividade o documento protocolado pelo diretor de registros da CBF, Reynaldo Buzzoni. Nas conversas, ele orienta um representante do Vitória sobre os trâmites da contratação do jogador do Monterrey, do México.
O STJD está na obrigação de se manifestar. Não pode silenciar diante de fato tão grave. Pouco importa aqui se contra ou a favor do Internacional. O silêncio neste caso poderá sugerir uma ação conjunta com a CBF para encerrar sem analisar um caso sério, uma acusação de documentos falsificados.
