Hiltor Mombach

Dona Nilda está triste por Felipão

Telefono para minha mãe, dona Nilda, em Garibaldi.
Diz que acabou de ler minha coluna.
Acha que o Felipão está sendo injustamente crucificado por mim: “Coitadinho do Felipão”. Felipão jogou no Guarani de Garibaldi como zagueiro. E morou no então hotel Garibaldi, dos meus pais.
Faz tempo, muito tempo, tanto tempo que um chamarisco para atrair hospedes era uma placa onde se lia “água encanada dos quartos”.
Dona Nilda não é a única a considerar Felipão vítima.
Rogério Camargo escreve belíssimo texto que leva o título de “Felipão, o Juda da vez”. Segue abaixo.



Luis Felipe Scolari é mais grosso que parafuso de patrola. Se não gosta, escoiceia. Se é confrontado, manda pro inferno. Mas não é por isso que não funciona. Porque até funciona. O homem ganhou a Copa do Brasil mais de uma vez. Ganhou o Campeonato Brasileiro. Ganhou a Libertadores. Ganhou uma Copa do Mundo. Portugal nunca havia chegado à final de uma Eurocopa. Chegou com ele. O melhor resultado de Portugal em Copas do Mundo havia sido um quarto lugar em 1966. Repetiu-o em 2006, com Felipão. Enfim, o sujeito tem currículo. Herdou a seleção brasileira desacreditada das mãos de Mano Menezes. Ganhou a Copa das Confederações – durante uma das maiores turbulências sociais que o nosso país já viveu. Estava se encaminhando para as finais, com as dificuldades que se sabe, quando veio a tragédia. Ninguém poderia esperar aquilo. Se ele ficou apático na casamata enquanto o time levava cinco gols em meia hora? Por mais grosso e coiceiro que seja, o cara é humano. Estava tão incrédulo quanto qualquer um de nós. Alguém lembra da expressão de Maradona quando a Argentina tomou aquele laço da Alemanha na África do Sul? Era a mesma vaca atolada. Mas o time voltou diferente pro segundo tempo. Lutou com bravura – à exceção de Fred, que parecia um dente frouxo pedindo pra cair. Se só contássemos últimos 45 minutos, teríamos perdido de dois a um, o que não é desonra. E, com a zaga titular, difícil que tomássemos aqueles dois gols. Além de termos chegado cinco vezes com chance real no gol alemão. Se eu gosto do Felipão? Não. Se eu colocaria Felipão de técnico no lugar de Mano Menezes? Não sei. Se eu concordo com os convocados de Felipão? Em parte. Jamais convocaria Dante ou Henrique, por exemplo. E Júlio César, apesar dos pênaltis defendidos, jamais seria meu goleiro titular. Se eu acho que a responsabilidade é de Felipão pela catástrofe de terça-feira? Em grande parte. Escalou mal, posicionou mal, orientou mal. E teve o azar de ver os alemães aproveitarem muito bem tudo isso. Como é muito fácil nominar um culpado para o que rejeitamos e bater nele, aparecem detratores e acusações de toda espécie em momentos assim. E, de certa forma, é admirável ver que o camarada está inteiro, que continua escoiceando, que continua acreditando em si mesmo. Muitos chamarão isso de arrogância. Também é confortável: “O cara perde e ainda fica com esta pose toda!” Talvez o nome disso seja simplesmente força e coragem.


Rogério Camargo