Hiltor Mombach

Doping qualitativo e quantitativo. Uma pequena história

O texto abaixo é da revista Época de 22/08/2008.
A matéria levou o título de "A medalha lavou a reputação de Maurren", diz Ligia Kogos.
Mais abaixo: "Para a dona da clínica de dermatologia que tentou explicar o doping de Maurren Maggi, em 2003, medalha de ouro em Pequim provou que a atleta "não precisava de anabolizante".


"Além da família, Maurren Maggi tinha uma torcedora especial fora de Pequim que aguardava com ansiedade o resultado da final do salto em distância nos Jogos Olímpicos. Era a médica Ligia Kogos, dona da famosa clínica de dermatologia em São Paulo que atende inúmeros atletas e ex-atletas, como Kaká, Romário e Hortência, e onde Maurren fez um tratamento que, no exame anti-doping, acusou positivo e lhe rendeu dois anos de suspensão.


"Essa vitória veio provar que a Maurren foi tratada de forma muito injusta", disse Ligia a ÉPOCA. "A medalha lavou a reputação da Maurren. Bem feito para quem estava torcendo contra", diz.


Ligia não esconde a mágoa com o caso de doping da atleta, ocorrido em 2003. Na ocasião, um exame realizado no Troféu Brasil de Atletismo detectou traços de clostebol, um esteróide anabolizante, na urina de Maurren. A alegação, embasada por Ligia, era de que a atleta foi contaminada pela pomada cicatrizante Novaderm, aplicada em sua virilha após uma sessão de depilação a laser. "Até hoje levantam a suspeita de que eu teria tentado inocentá-la, mas aquilo tudo foi uma demonstração de ignorância dos órgãos responsáveis", diz Ligia.


De acordo com a médica, a quantidade de clostebol detectada no exame de Maurren era muito pequena, mas a brasileira foi suspensa porque o critério usado pela Federação Internacional de Atletismo para a substância é qualitativo, e não quantitativo – qualquer resquício de clostebol incrimina o atleta. "Os órgãos responsáveis não aceitaram meus relatórios, explicando o que havia acontecido e qual a ação do remédio", diz.


Segundo Ligia Kogos, há outros fatos que comprovam a inocência de Maurren. “Não há forma de o clostebol ser ingerido ou injetado por uma pessoa. Além disso, ele atua apenas na área em que é aplicado e, mesmo que ela mergulhasse todo dia em uma banheira com o creme [Novaderm, isso jamais serviria para melhorar seu desempenho hormonal ou muscular”, diz.


A médica lembra também do teste que uma repórter do jornal Diário de São Paulo realizou em sua clínica (leia o post de Paulo Moreira Leite). A jornalista fez o mesmo tratamento de Maurren e foi pega no exame anti-doping. “Isso prova muita coisa”, afirma.


Ligia afirma que Maurren continua sendo cliente de sua clínica e que o caso acabou aproximando ainda mais as duas. Para a médica, não restará nenhuma dúvida sobre o caráter de Maurren. "Ela provou que não precisava de anabolizante. Foi campeã olímpica mesmo estando mais velha e tendo sido mãe de uma menina", diz Ligia, lembrando que Sophia, de três anos, é a maior inspiração de Maurren. "Agora ela tem os dois troféus, a medalha e a Sophia”.