Vai algum tempo escrevi a coluna que segue.
“Há muitos Brasis neste Brasil. O mais escandaloso é o Brasil dos nababos que passa o chapéu como quem mendiga na Rua da Praia. Estou falando dos clubes de futebol. No meu Brasil, no seu Brasil, no Brasil dos mortais, dívida com o governo se paga ou se paga. Já o Brasil da grã-finagem é outro Brasil.
O governo criou dois programas para recuperar os R$ 3,8 bilhões devidos pelos clubes (INSS, Receita Federal FGTS) e nem Refis, nem Timemania, que pedalou a dívida em intermináveis 20 anos, com a torcida ajudando a pagar, emplacaram.
Há clubes ostentando um faturando R$ 200 milhões por ano e chorando para pingar uma miséria no cofre do governo. Paga-se R$ 500 mil por mês de salário para um jogador e se sonega a cota governamental. Paga-se prazerosamente comissões milionárias a empresários e se resmunga na hora de recolher impostos.
Carrasco com os simples mortais, o governo é uma generosa mãe brasileira para com os clubes. Compadecido com o filho grã-fino, o governo pode agora ajudar na regulamentação dos jogos pela Internet para ajudar os clubes e salvar um dinheiro que é seu e que deveria cobrar judicialmente fosse o caso.
Mas, e há sempre um mas em tudo, os clubes de futebol são os filhos queridos desta Nação. É um outro Brasil habitando o Brasil. E, certamente, o Brasil dos clubes não é o meu e o seu Brasil.”
DAS MANCHETES
Meu assunto de hoje é Marcelo Hermes. O promissor lateral do Grêmio, um menino ainda, reserva, quer ganhar R$ 110 mil/mês. O clube oferece R$ 60 mil. Há quem se escandalize com a pedida. Eu, não. Marcelo Hermes é fruto das manchetes do seu meio.
“Inter anuncia Anderson, que vai custar R$ 28 milhões por quatro anos de contrato”, “a R$ 700 mil por mês, Giuliano custa 15% de todo o Grêmio”; “Grêmio gasta mais de R$ 27 milhões em três anos com Kleber, que deve sair”. “após dois acordos, Grêmio desembolsou R$ 41 milhões em três anos e meio com o Gladiador, englobando ainda pagamento ao Palmeiras, salários e imagem”; “Diego Forlán cobra R$ 10 milhões do Inter na Justiça”; “Flamengo pagará R$ 17 milhões a Ronaldinho Gaúcho”...
O OUTRO BRASIL
Marcelo Hermes vive neste outro Brasil, o Brasil dos grandes clubes de futebol. O Brasil dos clubes não é o meu e o seu Brasil. Há um Brasil que acompanha outras manchetes.
“Governo regulamenta salário mínimo de 2016 no valor de R$ 880. Mínimo atual é de R$ 788,00”; “salário mínimo sobe R$ 2,24 a mais do que a inflação”; “em 21 anos, real perde poder de compra, e nota de R$ 100 vale R$ 19,90”...
No Brasil do assalariado, a batata já está concorrendo com o preço do grama de ouro e comprar picanha só com financiamento do BNDES. Marcelo Hermes deixou este Brasil quando passou a ganhar míseros R$ 25 mil/mês. No seu mundo nababo, R$ 110 mil é mixaria.
Mas ele não é o criador. Ele é a criatura.
ACREDITE: NADA MUDARÁ
Vamos ao cenário mais tenebroso, uma combinação de fatores que colocará o futebol em colapso momentâneo. A pandemia do coronavírus se arrasta por mais três, quatro meses e, quando a bola voltar a rolar, por medidas sanitárias os clubes só podem jogar com portões fechados, valendo para Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. Não teremos pay-per-view e há uma debandada de sócios. De quebra, a Fifa não flexibiliza a janela de transferência. Em situação falimentar, num primeiro momento os clubes recorrem aos bancos. Depois, passam a atrasar salários.
Este cenário apocalíptico um dia termina. E quando termina, os jogadores voltarão a receber fortunas. Muitos entrarão na justiça cobrando os atrasados. E receberão. Endividados até o pescoço, os clubes recorrerão ao governo federal em busca de ajuda. E receberão. Por uma questão óbvia: sempre foi assim e sempre será. Amanhã retomo o assunto com a opinião de um advogado. Segundo ele, é preciso mudar a forma de se fazer futebol no país.
CBF x CLUBES
A CBF estaria estudando novas fórmulas para o Brasileiro neste ano de pandemia. Uma contemplaria o mata-mata. Os clubes nem querem ouvir falar da volta do mata-mata. Quem manda mais? Os clubes. Afinal, eles sustentam a CBF.
Dos Brasis
No Brasil do assalariado, a batata já está concorrendo com o preço do grama de ouro e comprar picanha só com financiamento do BNDES
