Bem me lembro de relatar ao meu pai meus problemas e ouvir, como resposta, uma pergunta: “E a saúde?” Surgia como uma perversidade esta falta de inquietação, de levar o assunto adiante. Hoje, quando a vida olha para trás, percebo que só há um problema insolúvel na vida.
Dias atrás, quando da instalação da CPI do Instituto Ronaldinho, sugeri o seguinte título para uma reportagem: “O inferno astral dos Moreira”. A justiça condenara Assis por lavagem de dinheiro e sonegação de impostos e seu irmão, Ronaldinho, se transformara numa sombra do jogador duas vezes melhor do mundo, atormentado ainda pela falta de pagamento no Flamengo.
A aridez dos novos tempos contrastava brutalmente com os longos anos de bonança. Mas não estava ali o inferno dos Moreira. Era antes o céu, se é que me entendem. Não se suspeitava da doença de dona Miguelina e me pego numa solidariedade familiar. A CPI, o processo do qual ele recorreu e possivelmente ganhará, a má fase do irmão em campo, a dívida do Fla, tudo isto se transforma assim, como num passe de mágica, em rigorosamente nada, um imenso nada. São meros estorvos diante do drama da mãe.
Conheço mais Assis do que Ronaldinho. Em encontros futuros, bem futuros, desejo cometer a malcriação de, mesmo antes de ouvi-lo falar da vida, poder perguntar: e a saúde de dona Miguelina?
