Hiltor Mombach

E O RACISMO?

E O RACISMO?

Sérgio Xavier é diretor de redação da revista Placar e tem um blog, o blog do Serginho. Reproduzo duas de suas colunas, autorizado pelo autor.

O VERMELHO DO GRÊMIO

 Borges, Hugo, Fábio Santos, Souza, Rodrigo, Joílson, Leandro, Silas. Nunca na história desse país vimos algo parecido. Quase que em uma só tacada, um grupo de jogadores de um clube se transferiu para o outro. Não foi coincidência, foi deliberado. O Grêmio até montou boas equipes nos últimos anos, não conseguiu erguer taças. Faltavam campeões. Os ex-são-paulinos estavam espalhados por aí, a diretoria gremista passou o rodo e pegou tudo o que conseguiu carregar.
Nossos designers tiveram a ideia de transformar o tricolor gremista em tricolor são-paulino. Ideia brilhante, com execução competente.
Quando cheguei e vi a imagem no computador da redação logo pensei na questão do vermelho do São Paulo. Gremistas fogem do vermelho como o diabo encarnado da cruz. Pensei em desistir da coisa toda.
Não. Não fazia o menor sentido. Sou gremista, nunca escondi isso de ninguém. Escrevi até um livrinho chamado "O dia em que me tornei gremista" pela Panda Books. Mas estou usando agora uma camisa polo vermelha. Ontem usei uma cinza. No sábado, meu dia de folga, fui almoçar com aquela camisa linda gremista que parece a da Argentina. Meu carro é azul escuro, o da minha mulher é vermelho. Trocamos constantemente, em São Paulo existe uma coisa chamada rodízio. Não está escrito em lugar algum, maridos sempre levam a pior aí. O carro do rodízio sempre acaba na minha mão. O vermelhinho, pelo menos um dia da semana, é o meu veículo
Não me sinto menos gremista por isso. Não acho que alguém me desrespeite quando me presenteia com algo vermelho. Usamos o vermelho do São Paulo na reportagem do Grêmio. Mas talvez alguém precise ir para o inferno por cometer tamanho desatino. Os designers da Placar são inocentes, não sabem de nada. Eu, diretor de redação gremista da Placar, mereço arder naquelas chamas avermelhadas. Podem me levar.
E O RACISMO?

"Pelo site, pelo twitter, a discussão parece ter engasgado no mesmo ponto. Placar teria desrespeitado o manto sagrado gremista ao colocar o vermelho do São Paulo no uniforme tricolor gremista na edição de fevereiro (leia post anterior). Em primeiro lugar, dessa vez não poderemos escapar do fato de o diretor de redação da revista ser gremista. Sou. Nunca escondi nem jamais nunca esconderei isso. Tenho profundo orgulho do clube que torço. Das grandes vitórias e das honrosas derrotas também.

Além de gremista, sou diretor de redação da Placar. E tento fazer a melhor revista possível. Em regra, as páginas específicas do Cruzeiro usam o azul, as do Palmeiras o verde, o Flamengo tem reportagens com o vermelho como base. É uma característica do design da Placar. A revista é nacional, respeitamos as diferenças regionais.

Mas se julgarmos que uma cor rival precise ser usada para viabilizar uma ideia, faremos isso. Estávamos falando dos jogadores são-paulinos no Olímpico, o vermelho do São Paulo se justificava.

Nunca ouvi e li tantas vezes a palavra "desrespeito". O Grêmio teria sido desrespeitado. Por que uma cor foi usada em uma revista?

Já que o assunto é respeito, vou aproveitar para falar de algo que há anos me incomoda profundamente quando vou ao Olímpico. Em qualquer jogo de qualquer campeonato, algum setor da torcida puxa um cântico qualquer lembrando que "eles" são os macacos. Negros, gente inferior, o propósito disso tudo. Racismo, com notas nazistas, sempre me tira do sério. Mas, nesse caso, fico profundamente envergonhado quando percebo que o senhor do meu lado está ensinando a seu filho aquele "uh, uh, uh" agressivo. Um pequeno racistinha está sendo formado na Azenha. Boa parte do estádio manda ver nos xingamentos à "macacada".

Do que falávamos mesmo, de respeito?"

Vai muito tempo escrevi sobre o assunto. Para meu espanto, mas espanto mesmo, recebi e-mails de colorados dizendo que entendiam o cântico e mais: alguns até vestiam-se de macacos. Quando à matéria de Placar: perfeita. Mas há quem veja pelo em ovo.