Hiltor Mombach

EM DURBAN. COM ENORMES SUSTOS

EM DURBAN. COM ENORMES SUSTOS

Saímos da geladeira que é Johannsburgo nesta época do ano pela madugada. Destino: Durban, onde o Brasil enfrentará Portugal na última partida da primeira fase da Copa do Mundo. São 600 quilômetros a serem vencidos. Nosso motorista: Khabo Phillip Molefe.
A primeira hora de viagem foi tranquila. Ainda escuro, cochilávamos. Logo baixou uma cerração. Na beira do asfalto a grama, virada em palha, era sufocada por uma geada grossa. Lembrei daquela que considero a melhor composição de Luiz Coronel: "Geada vestiu de noiva/Os galhos da pitangueira/Ainda caso com Rosa/Caso ela queira ou não queira"... E da minha Garibaldi, sempre tão branquinha ao amanhecer nos meus tempos de piá. A viagem seguia, a cerração apertava, Kabho baixou a velocidade. O cochilo transformou-se em preocupação. Escuro, cerração e um movimento louco de caminhões indo e vindo. De repente, Kabho pisou no freio. Um caminhão de carga invadia metade da nossa pista. Atrás, outro caminhão de carga. Mais atrás, outro...Uma carambola, pensei. E comecei a contar o engavetamento. Um, dois, três, quatro...15. Quinze caminhões engavetados. Seguia-se um engarrafamento. De repente, um novo engavetamento. Uma ambulância dava assistência a um homem estendido no capô de uma jamanta. E mais engarrafamento, com outros engavetamentos. Seguimos viagem, agora vigilantes e tensos, com Kabho ainda mais atento, nariz colado ao vidro do carro, como se assim pudesse enxergar melhor. Sete horas e nada do sol, encoberto pela cerração que brotava densa e insistente. Mais alguns quilômetros e nova freada. Agora um automóvel estava atravessado em nossa pista, cercado por vários outros, todos batidos. Havia desespero das pessoas. Observei que todos estavam fora dos seus carros. Imaginei que o desespero era menos pelo acidente do que pelo pânico de um caminhão arrastar tudo. Kabho driblou aqui, ali e seguimos viagem. Parar ali era brincar com a morte. Oito horas. Nada do sol. A cerração ainda vencia a luta. Tensos, embora confiantes no braço de Khabo, um motorista prudente e atento. Haroldo de Souza sugeriu uma parada para um café. Quem sabe aquela cerração não se dissiparia? Khabo achou que só pelas 10h o sol venceria a batalha. Lembrei outra vez de Garibaldi. Ali pelas 7h eu enfrentava o frio e uma camada grossa de geada e, todo agasalhado, ia para o colégio Santo Antônio. No recreio, pelas 10h, a cerração ainda tomava conta de tudo. Ao meio-dia, retornava para casa só de camiseta. Cerração que baixa, sol que racha. Terminado o café, fim da cerração. O sol finalmente se impunha. Ainda havia um bom pedaço de chão para vencer, mas, agora, sem sobresalto.
Depois de quase sete horas, chegamos ao Beach Hotel. Deixamos uma Porto Alegre gélida para entrar num Rio de Janeiro num dos seus dias mais esplendorosos. Esta comparação diz tudo. Durban (em zulu eThekwini) é uma cidade da província de KwaZulu-Natal, na costa do Oceano Índico. É a terceira maior do país em número de habitantes após Joanesburgo e Cidade do Cabo. Nosso hotel fica em frente ao mar, um mar lindão, azul. A parte da cidade que eu vislumbro da janela do meu quarto, no quinto andar, está neste vídeo. Há alegria e vida por onde quer que se olhe. Pena que só estaremos aqui por um dia. Amanhã, logo após Brasil x Portugal, voltaremos para a geladeria, para Johannesburgo, onde o sol de inverno esquenta tanto quando uma lâmpada de frizzer.