Por Jamil Chade Zurique, 20 (AE)
Em uma tabela politicamente construída, a CBF repartiu benefícios, fez agrados e puniu inimigos. Para contentar os políticos e justificar os gastos públicos com os estádios, a entidade decidiu que até as menores sedes receberão as maiores seleções.
São Paulo foi confirmada como a abertura do evento, em uma quinta-feira - dia 12 de
junho -, às cinco da tarde, com a seleção brasileira. O Itaquerão, depois de
polêmicas e de derrubar o Morumbi do evento, ainda receberá mais três jogos da
primeira fase, uma oitavas de final e semifinal. Na Fifa, o estádio passou a ser
chamado de "Arena de São Paulo".
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, justificou a decisão de dar um peso maior para
São Paulo na Copa, depois de ameaçar tirar a cidade do mapa por enfrentar resistência
na obtenção de recursos públicos. "Nada melhor do que começar em São Paulo, onde
começou o futebol no Brasil", disse Teixeira, lembrando que a cidade também merece
receber os jogos por seu peso econômico.
Outro beneficiado foi Fortaleza, onde um dos principais políticos locais, Ciro Gomes,
mantém uma relação de amizade com Teixeira. A cidade receberá a segunda partida da
seleção, no dia 17 de junho. Outras cinco partidas ocorrem na cidade, inclusive uma
quartas de final que poderia contar com a seleção brasileira. Ferruccio Feitosa,
secretário especial do governo do Ceará para a Copa, comemorava e apontava que a
tabela permitiria uma explosão na economia local e na chegada de turistas.
O Brasil termina a sua primeira fase no dia 23 de junho, em Brasília, que foi
premiada pelo envolvimento político em garantir que o estádio na capital seja um dos
primeiros a ficar pronto. Roubou um jogo de São Paulo e vai terminar o Mundial com
sete jogos, entre eles a disputa do terceiro lugar. Ainda ficou com a abertura da
Copa das Confederações e uma semifinal do torneio de 2013.
O governador do Distrito Federal, Angelo Queiroz, não escondia a sua satisfação. "Foi
um reconhecimento ao nosso esforço. Hoje, 40% do estádio já está pronto", comemorou o
político.
Outro aliado de Teixeira também ficou no caminho da seleção em duas ocasiões. Belo
Horizonte, com seis jogos, terá ainda uma semifinal. A relação de amizade entre o
senador Aécio Neves (PSDB) com Teixeira não é mistério para ninguém.
MARACANÃ - O Rio de Janeiro foi a grande surpresa. A cidade vai gastar R$ 1 bilhão
para reformar o Maracanã. Mas apenas vai receber a seleção se ela chegar à final,
algo que não conseguiu nas últimas duas Copas do Mundo. Para compensar, a cidade
ganhou o maior número de jogos: sete. A cidade vai ficar também com a base da seleção
brasileira, com o centro de imprensa e com a residência dos árbitros, além da própria
sede da Fifa.
Quem também não saiu com um bom desempenho foi Porto Alegre, com cinco jogos, mas
apenas até as oitavas de final. A relação entre os políticos locais e Teixeira foi
estremecida nos últimos meses e a decisão de dar um papel menor á capital gaúcha foi
considerada como um recado duro ao governo federal, que fazia lobby pela cidade.
Quem ganhou foram as sedes menores. A CBF fez questão de levar até para Manaus,
Natal, Curitiba e Cuiabá as maiores seleções. "Queríamos garantir que todas as
cidades terão todas as seleções", disse Jerome Valcke, secretário-geral da Fifa. "As
melhores seleções vão passar por todos os locais e não vamos deixar só as grandes
cidades com grandes jogos", explicou. "Os melhores times e cabeças de chave passarão
por todas as cidades", confirmou Teixeira. França, Itália, Alemanha, Espanha ou
Argentina poderão acabar estreando em uma dessas quatro sedes menores.
A decisão de fazer todas as seleções viajarem vai contra o que a Fifa defendeu por
meses, que era uma regionalização da Copa. Nesta quinta, a CBF explicava que a
decisão de vetar isso teria sido dos médicos da Fifa, que alegaram que permanecer
muito tempo em um clima mais frio e depois mudar para um clima quente, seria mais
prejudicial que a rotação. Na Fifa, ninguém confirmou essa versão.
