Hiltor Mombach

Entrevista: Marcelo Grohe



Carlos Corrêa / Interino

Desta vez, o convidado da coluna é o goleiro do Grêmio, Marcelo Grohe, que fala sobre o sonho de encerrar a carreira no clube, sobre os salários do mundo do futebol e sobre a barreira que abriu na final do Mundial de Clubes, em 2017. A seguir, os principais trechos.
Em que momento caiu a ficha de que você havia entrado para a história do Grêmio?
Acho que primeiro foi na conquista da Copa do Brasil, porque encerrou uma série de anos sem conquistas. Mas sem dúvidas, a Libertadores é a competição mais importante. Eu fui ter a noção quando cheguei em casa, na quinta-feira pós-jogo, depois de toda a comemoração. Ali começou a cair a ficha de que a gente era tricampeão e eu fazia parte desta história.

Conquistar uma Libertadores já é difícil para qualquer equipe. Duas seguidas é algo que a história mostra ser pouco provável. Baseado no que o torcedor gremista pode esperar o título novamente este ano?
Bom, primeiro o desafio está lançado diante destes números. E acho que esse nosso grupo gosta de desafios. Acho interessante que desde 2015 continuamos com uma base. Foram acrescentando alguns jogadores, outros saíram, chegaram novos este ano. Mas a base vem desde 2015. E, cara, a gente formou um grupo que no futebol chamamos de “DNA vencedor”. A gente quer mais. O Renato insiste todo dia nessa história de colocar mais faixa no peito e isso que temos buscado no dia a dia. Todo mundo viu que é bom ganhar e o objetivo é continuar assim. E a Libertadores seria outro sonho a ser realizado.

Já são 13 anos no profissional do Grêmio. A ideia é encerrar a carreira no clube?
Acabei de fazer 31 anos...

E projeta jogar até que idade?
Cara, não fiz esse cálculo. Vou ver, mas sempre tive uma ideia de que até os 35 anos é o mínimo. Depois, vou ver condição física, aquela coisa toda. Mas nunca sofri nenhuma lesão grave, sou um cara que me cuido, gosto de trabalhar. Então espero prolongar o maior tempo possível. Claro que numa condição que eu seja útil. No momento que só estiver fazendo número, aí é hora de pendurar as luvas para não atrapalhar e passar vergonha.

E a ideia é permanecer no Grêmio?
Está se desenhando para isso. Deixei as coisas acontecerem com naturalidade na minha carreira. Fiquei muito tempo no banco, esse tempo serviu como aprendizado. Essa situação de ficar apenas no Grêmio foi acontecendo naturalmente. Eu tinha um sonho de ser titular do Grêmio e, graças a Deus, consegui. Mas de ficar assim a carreira toda não era planejado, foi acontecendo. Mas é uma coisa que me agrada muito. Vejo a história do Marcos no Palmeiras, do Rogério Ceni no São Paulo, com uma história vinculada apenas a um clube e é algo que me agrada. Se fizer isso, serei realizado profissionalmente.

Mudando um pouco de assunto, quantos você queria esganar quando a barreira abriu no gol do Real Madrid?
Pô, cara. Acho que são coisas que acontecem no futebol. Assim como posso errar, o zagueiro pode, o atacante pode. É do jogo. Perdeu, perdeu todo mundo. Ganhou, ganhou todo mundo. Claro que sabíamos da dificuldade que era ganhar do Real Madrid e enfim, não foi possível, a equipe deles conseguiu ser superior.

Os valores que giram em torno do futebol são meio que fora da realidade do país, não raro na casa dos seis dígitos. Vocês jogadores têm a noção de que vivem em um mundo diferente da maioria das pessoas no país?
Acredito que somos privilegiados de poder estar no futebol, que nos dá essa condição. Claro que nem todo mundo ganha que nem o Neymar, principalmente quando sobe da base. Mas óbvio que em relação a uma pessoa de fora do futebol é um ganho muito maior. Existe uma caminhada para se chegar lá. E a nossa carreira é curta, às vezes tem 10 ou 15 anos, mas o auge, financeiramente falando, são talvez três, cinco anos.

Mas pelo que você observa, os gastos são pensados projetando o futuro ou se gasta sem pensar?
Vai de pessoa para pessoa. Eu me preocupo muito com o pós-carreira. Sei porque tenho 31 anos e daqui cinco, sete anos estou encerrando a minha carreira. E temos inúmeros exemplos de jogadores bem-sucedidos que chegaram no final da carreira e tiveram dificuldade. Às vezes a gente, como mais velhos, vê a gurizada que está subindo gastando, primeira coisa já compra um carro, às vezes mais do que a condição permite. Aí vamos aconselhando, porque nossa carreira é curta.

Atualmente, se vive um momento muito particular do país. Você acha importante que os jogadores se posicionem sobre essas questões? Qual a sua posição?
Acho válido. Vejo com muita tristeza tudo que está acontecendo. Infelizmente isso retrata a ganância das pessoas. Temos tudo para estar num dos melhores países do mundo. O Brasil tem tudo, produz, tem um alto astral, tem turismo, não tem catástrofes naturais. Infelizmente aconteceram muitas situações, desvios e tal, que poderiam ser revertidas em saúde, educação. Mas também vejo que o Brasil está vivendo um outro momento. Tem que ir agora ou não vai nunca mais, não tem outro jeito. Esse é o momento de acabar com esse negócio de que um malandro no Brasil é o mais inteligente. Acho que não pode ser desta forma.