Hiltor Mombach

Entrevista: qual a importância de um novo ídolo para o esporte brasileiro

A partir da ascensão do tenista João Fonseca, o superintendente e fundador do WimBelemDon, Marcelo Ruschel, fala sobre a influência sobre os jovens tenistas

João Fonseca tem sido considerado uma promessa do tênis brasileiro
João Fonseca tem sido considerado uma promessa do tênis brasileiro Foto : Martin KEEP / AFP

Carlos Corrêa / Interino

João Fonseca é o nome da vez no esporte brasileiro. Aos 18 anos, o carioca, considerado a grande promessa do tênis nacional, mostrou que está mais para realidade. Nessa semana, surpreendeu o mundo ao logo na sua estreia em um Grand Slam, derrubar um Top 10, no caso o russo Andrey Rublev. Na rodada seguinte, caiu, mas deixou evidente que será um nome a ser acompanhado de perto nos próximos anos. Mais do que os resultados, o jogador representa também o nascimento de um novo ídolo para o esporte nacional.

Pensando nisso, conversei com Marcelo Ruschel, superintendente e fundador do WimBelemDon, projeto social criado em 2000 e que atende crianças em situação de vulnerabilidade social, tendo entre seus destaques a ligação com o tênis. Logo, ninguém melhor do que Marcelo para comentar como o surgimento de um nome como João Fonseca impacta nos jovens fãs da modalidade. A seguir, os principais trechos da conversa:

Os jovens já falam sobre o João Fonseca?

Sim e não. Os pequenos ainda não. Os mais velhos aí sim. Na terça-feira, quando o João venceu o russo, deixamos a TV ligada e os grandes quando chegavam perguntavam, conversavam com os professores. Os pequeninhos só queria saber das brincadeiras mesmo.

O quão importante é para uma nova geração de jovens tenistas ter um novo ídolo surgindo como o João?

Para mim, o mais importante, e me dei conta disso lá atrás, quando começamos o trabalho aqui, é que eles possam se espelhar em exemplos positivos. Até porque aqui nos preocupamos não em formar tenistas, mas bons cidadãos, o tênis é um chamariz. E uma coisa que me chamava a atenção no início é que perguntávamos para as crianças qual era o sonho delas e muitas não sabiam, não tinham um sonho, não tinham em quem se espelhar. Então fiz questão de buscar embaixadores para o WimBelemDon como (os tenistas) Fernando Meligeni, Thomas Koch e Bruno Soares, além do chef Lucas Corazza. Essa percepção de um novo ídolo como o João demora um pouco mais. Os jovens são expostos a tanta informação que até descobrirem demora um pouco. Mas não tenho dúvidas que ele vai superar todas as expectativas. Ele já provou que tem uma maturidade fora do comum.

Como essa idolatria se reflete nos jovens?

Para qualquer esporte é fantástico que tenha alguém que alavanque uma multidão. Claro que é uma série de fatores. O Guga, por exemplo, além de toda a qualidade era muito carismático. Você pegava um táxi naquela época e o motorista estava falando sobre ele. E de tudo que eu ouço das pessoas que conhecem melhor o João Fonseca, ele está muito bem estruturado e com uma cabeça boa para ir longe. Aqui, claro, estamos comemorando. Quando se vê uma pessoa carismática assim é muito bom. Veja o exemplo agora da idolatria com a (atriz) Fernanda Torres, que já era uma pessoa bacana, muito querida. É ruim abrir os jornais e ver que 90% das notícias são ruins. O João é uma notícia que anima todo mundo.

Ao contrário de esportes coletivos, onde o fã vai lá e, por exemplo, compra a camisa do time, quer ser o ídolo, no tênis é diferente. Como se manifesta a idolatria numa figura individual?

Difícil dizer. Mas, por exemplo, tinha um tenista argentino muito famoso nos anos 1970, o Guillermo Vilas. Um dos maiores nomes do tênis argentino. E ele dizia que imitava no estilo o (tenista gaúcho) Thomas Koch. Dizia que era apaixonado pelo estilo dele. Imitava o jeito de jogar, de se vestir. Era cabeludo, jogava de bandana, algo transgressor para a época. O João ainda é difícil de ver como vão tentar imitar, recém está aparecendo. Mas talvez por ser um tenista do tipo completo funcione neste sentido. De quem se espelha nele tentar melhorar. O jovem que tem 17 anos vê que o João com 18 chegou lá. Você consegue se aproximar desse sonho. Ter um exemplo para se espelhar é sempre mais fácil. Nós somos o tempo todo tentados a desistir. E tendo exemplos legais assim é algo sempre positivo. O sonho independe do tamanho.

Falando um pouco do WimBelemDon agora, quais as atividades que vêm por aí em 2025?

Será um ano de muitos desafios. Coisas legais estão acontecendo e a maior dela é chegar aos 25 anos onde vamos poder concretizar alguns sonhos como o nosso plano de expansão. Tanto em termos de estrutura física, onde vamos ter capacidade para atender mais crianças, como também expandir para a praça com o projeto de uma biblioteca comunitária.