Hiltor Mombach

Escândalo faz bem para a pele

Escândalo faz bem para a pele

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Por Alberto Murray Neto

Acho que a glória suprema de um jornalista deve ser derrubar o Presidente da República. Qualquer que seja ele. O exercício dessa nobre profissão implica a obrigação de ser independente. A imprensa tem o importante papel de levar ao conhecimento do povo o que está ocorrendo no mundo. Mais do que isso, de desvendar os mistérios e as mazelas que se passam nos bastidores dos poderes constituídos. E torná-las públicas. Entregá-las ao julgamento de seus leitores.

Ser Jornalista no Brasil deve ser ótimo. Ao mesmo tempo em que há, aqui, um grau satisfatório de liberdade de expressão, o que não faltam são escândalos em profusão. Deve ser chatíssimo ser jornalista em Luxemburgo, por exemplo. Lá, os plantões especiais devem cobrir, quando muito, suicídios.

Já ouvi gente dizer que o jornalista fulano de tal “tem raiva da vida”, já que suas coberturas “são sempre ácidas, críticas”.

Não é nada disso.

Na minha concepção de mero leitor, jornalista bom de ler é aquele que vai sempre além do fato. Que busca saber o que há por trás da notícia oficial que, via de regra, é mentirosa, ou incompleta. O jornalista deve ser inconformado, irriquieto, sarcástico. E dai a confusão que uns e outros fazem, achando que a esse profissional caberia, apenas e tão somente, relatar o óbvio, sem expressar a sua opinião.

Os escândalos são a matéria prima da produção jornalística. Um jornal sem escândalo, principalmente em um País como o nosso, é chatíssimo. Por melhor que algo esteja, sempre há espaço para melhorar. E aos jornalistas lhes cabem, exatamente, ir atrás do que pode ficar melhor. Por isso disse acima que ele deve, sempre, ser um inconformado.

Jornalista sem escândalo para investigar, sem gente para malhar é o mesmo que um médico sem pacientes para cuidar.

Creio que a satisfação maior de um médico seja salvar uma vida. A de um jornalista deve ser investigar e desvendar um escândalo. Descobrir uma rede de corrupção em um procedimento licitatório, pilhar um deputado armando uma tramóia, documentar que o Sarney acobertava seus asseclas com atos secretos no Senado, destrinchar os meandros do mensalão devem dar ao jornalista um prazer indescritível. Ao leitor — ao menos no meu caso – é delicioso.

Assim, a coluna de um jornalista deve ser, por definição crítica, atrevida.

Descortinar um escândalo e fazer um político ficar com cara de idiota, gaguejando em frente às câmeras para tentar justificar o injustificável, deve ser o melhor remédio para embelezar a pele de um jornalista.

Muito melhor que os cremes do mar morto.